Evil pergunta com Delmar Galisi

Eu acho que todo jogador nato de videogames um dia já se imaginou do outro lado, criando jogos para divertimento alheio, e claro, ganhando um bom dinheiro com este “trabalho”. Pensando nisso, para iniciar esta seção conversei com Delmar Galisi, coordenador do curso de design e desenvolvimento de games da faculdade Anhembi Morumbi, em São Paulo.
ps: esta entrevista foi publicada pela primeira vez em janeiro de 2007 no antigo formato da EGL. Os melhores artigos do antigo site ganharam novo espaço no formato blog. A entrevista é muito bacana e quem sabe não sirva de base para o encaminhamento profissional de muitos, boa leitura!
Evil- Como coordenador de um curso de design e programação de games, eu começo com o básico! Como você chegou aos games? Qual foi seu primeiro console?
Delmar- Ao contrário da maioria dos profissionais da área, nunca fui um apaixonado pela área. Entrei um pouco por acaso. Evidentemente joguei muito videogame na vida. O meu primeiro console foi o Atari, que adquiri no começo da década de 1980. Meu tio trouxe dos EUA antes mesmo de ele se popularizar no Brasil. Mas, profissionalmente, a área de games nunca foi o meu foco. Sou formado em Comunicação Social pela USP e comecei trabalhando com publicidade, em agência. Depois trabalhei algum tempo no Setor de Comunicação do curso Etapa, onde pude atuar também com editoração e mais tarde com software educativo.
Por conta disso fui convidado a fazer parte, como pesquisador, da Escola do Futuro, um núcleo que pesquisa novas tecnologias para a área de Educação. Alguns dos projetos que realizamos, entre 1995 e 1997, foram com games educativos. A partir daí não larguei mais a área. Desenvolvi projetos na games, passei a dar aulas com a área de meios digitais e interativos e finalmente defendi mestrado na área. Em 2002, fui convidado a coordenar o curso de Design de Games da Anhembi Morumbi, onde estou até hoje.
Evil- O que um futuro aluno do curso de desenvolvimento de games pode esperar do curso? Quais as aptidões necessárias?
Delmar- O objetivo do curso é formar o designer de games (aquele que projeta e desenvolve algumas partes do jogo). O curso tem disciplinas da área do design, de desenho, animação, programação, roteiro, áudio, marketing etc, além de disciplinas de fundamentação teórica, como Mitologia, Pesquisa e Método. Em todos os semestres o aluno tem que desenvolver em grupo um jogo ou uma animação, a partir de um tema definido pelos professores. Há uma orientação para este trabalho e no fim o aluno (e o seu grupo) tem que apresentar o resultado para um banca de professores. É o que chamamos de Projeto Interdisciplinar.
Não há pré-requisitos para fazer o curso. Mas ajuda bastante ter bons conhecimentos em inglês e habilidade em desenho, além de conhecer os procedimentos básicos de computação.
Evil- O curso é de fato abrangente, porém existe a possibilidade do aluno se especializar em determinada área, como programação, direção de arte ou até na composição da trilha sonora para os jogos?
Delmar- Sem dúvida, o aluno pode ser especializar. Isto já vem ocorrendo. Para se ter uma idéia, dos alunos que estão se formando, alguns se especializaram em modelagem/animação 3D, outros em programação, outros em marketing e tem até um caso de aluno que se especializou em design de som para jogos. Hoje ele trabalha numa empresa de desenvolvimento de games somente com a área de áudio.
Evil- Quais as melhores possibilidade de empregos hoje no Brasil para um recém formado?
Delmar- A indústria de videogames no Brasil está dando os primeiros passos. Já há empresas no Brasil que só trabalham com games. Mas o mercado tem suas dificuldades. Principalmente na produção de jogos para PC e console. Há uma série de problemas que esbarram principalmente no preço do produto, que tem gerado muita pirataria.
Há ótimas alternativas de atuação, como games para celular e web. Apesar de não serem o filé mignon da área, é uma boa estratégia de atuação no mercado para que uma empresa apareça e produza jogos mais elaborados. A carreira, no entanto, oferece outras opções de empregabilidade, como animação, web, multimídia e até programação. De qualquer maneira, o mercado tem melhorado muito nos últimos tempos. Já temos até uma associação da área, a Abragames.
Evil- A pirataria é mesmo a grande vilã do mercado de games no Brasil?
Delmar- A pirataria é a conseqüência de uma conjuntura que impede que o valor do produto seja acessível. Isto envolve tributos, taxa de câmbio e outros fatores que incidem no preço final do jogo. Portanto, não podemos ser ingênuos ao achar que apenas uma campanha de conscientização resolverá o problema. Isto não esconde o fato, evidentemente, de que há uma cultura de pirataria no país, que deve ser condenada e fortemente combatida.
Para se ter uma idéia da gravidade da situação, há um caso emblemático de um jogo brasileiro cujo preço promocional era mais barato do que o pirata. Ainda assim, alguns consumidores pagaram mais pela versão “alternativa”. Portanto, eu diria que a pirataria é a grande vilã, sim. Ela tem impedido que as empresas distribuidoras acreditem no mercado brasileiro e isto tem impedido inclusive que haja uma indústria no país.
Evil- Os videogames de forma geral refletem a cultura de origem e games japoneses tem seu estilo, assim como os americanos. O brasileiro por décadas se espelhou em ambos os produtos e assimilou muita de suas idéias e conceitos. Como isso é visto na graduação?
Delmar- Este é um assunto recorrente no nosso curso. Inclusive, num dos semestres, os alunos devem desenvolver um jogo a partir de temáticas da cultura brasileira. O 4º Período, por exemplo, está desenvolvendo um jogo sobre os bandeirantes. No 1º Período, o tema é a cidade de São Paulo. Além disso a gente tenta fortalecer nos alunos a idéia de formarmos uma linguagem brasileira de videogames, tanto no aspecto gráfico, quanto no da jogabilidade.
Evil- Já que estamos falando essencialmente do jogador brasileiro, existe dados que mostrem como é o “gamer” brasileiro? Qual o console mais popular, qual porcentagem destes jogam no PC? Qual estilo de game é o preferido?
Delmar- Não tenho dados para responder esta questão. Acredito que, pelo poder aquisitivo do brasileiro, o PC ainda é o mais popular.
Evil- O curso então é direcionado para produção de games no PC?
Delmar- A idéia é que com o curso você seja capaz de projetar jogos para qualquer plataforma. Mas existe uma diferença entre projetar e produzir. A produção de um jogo para PC é mais simples. Para console, a coisa complica um pouco porque você precisa do chamado kit de desenvolvimento fornecido pela empresa (Sony, Microsoft etc). Infelizmente este kit não é fornecido tão facilmente assim.
Mas ao projetar um jogo para PC, vc pode facilmente convertê-lo para console. Vide o número de jogos que há no mercado para as duas plataformas. Além disso o curso aborda também games para Web e um pouco de games para celular.
Evil- Muita gente que pensa em ser desenvolvedor de jogos hoje no Brasil se pergunta; dá para se formar aqui e acabar trabalhando numa Capcom, EA, Ubisoft, Square Enix, Nintendo, Sega da vida mais pra frente? Que tipo de metas o profissional precisa encarar para perseguir tamanho sonho?
Delmar- A questão técnica não é o maior empecilho. Há desenvolvedores de games e animação no mercado americano e canadense, só para ficar nestes dois exemplos. Mas outras questões estão envolvidas neste processo: o preconceito e desconfiança do profissional proveniente de países ditos emergentes é uma. Outra é a língua. E ainda há a concorrência. Não é só brasileiro que está querendo trabalhar no mercado internacional de jogos. Há gente no mundo inteiro querendo a mesma coisa.
Evil- Recentemente a MS anunciou que trará o X360 para o Brasil, uma importadora também se comprometeu a trazer o Wii, e para minha surpresa a Video Games Live, um concerto de musica de games também aportou por aqui, fazendo devido sucesso na comunidade de jogadores do Rio e São Paulo. Isso salienta a idéia de que a industria do setor sabe do potencial brasileiro.
Não existe a possibilidade de empresas grandes como a EA ou Nintendo de manter estúdios terceirizados aqui, como forma de baratear a produção, como a LucasArts faz ao criar um estúdio no sudeste asiático? Qual a possibilidade disto acontecer? O que seria necessário? Isso seria bom a longo prazo para o mercado nacional?
Delmar- Temos que provar que há profissionais capacitados para produzir games no Brasil. Algumas poucas empresas já perceberam que os brasileiros podem ser tão bons quanto os indianos ou os chineses na produção de softwares. Mas games são produtos um tanto quanto diferentes dos softwares. Empresas como Nintendo e EA nem sabem que existem desenvolvedores de games no Brasil. Precisamos nos perguntar, no entanto, se vale a pena ficarmos apenas produzindo os games que, na verdade, são concebidos lá fora. Acho que este é um bom caminho se este processo ajudar a produzir posteriormente uma indústria criativa própria. Senão não vale a pena.
Evil- Hoje em dia existe a Internet, onde comunidades de jogadores, desenvolvedores, entusiastas de determinados estilos de jogos e consoles se reunem e trocam informações. Muita gente inicia-se desta forma no desenvolvimento de jogos ( de maneira amadora, claro ), até que ponto um profissional assim alça sucesso no mercado? Como o curso pode ajudar um profissional digamos, autodidata?
Delmar- Um “amador” pode obter sucesso se criar algo realmente inovador. A Internet é um bom canal para isso. Há exemplos aos montes destes no mundo digital. Veja os casos Yahoo, Google etc. Evidentemente um curso ajuda muito, pois quem o faz tem acesso mais fácil ao conhecimento.
Evil- Videogame é arte?
Delmar- Não. Pode ser suporte para a arte. Isto é bastante diferente. A maioria dos videogames – da forma em que são concebidos e produzidos hoje – são objetos industriais de entretenimento: visam lucro, são produzidos em escala, têm público-alvo, têm preço. No entanto, dependendo do resultado, vc pode considerar alguns jogos que são de tal forma sublimes, experimentais, inovadores como próximos de uma obra artística. É como no cinema. Cidadão Kane ou Casablanca foram filmes produzidos a partir de uma indústria (cinematográfica) para obter lucro. Mas quem nega hoje que estes filmes não sejam uma obra de arte.
Para saber mais sobre o curso de graduação de Design de Games na Universidade Anhembi Morumbi, clique aqui.
3 comentários3 Comentários
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Muito interessante a matéria ! Eu sempre via anuncios de trabalho na IGN AUS, tive vontade de aplicar, hehehe
Cara, é meio brochante a ideia do profissional daqui bater de frente com os caras de “lá”.
Sem falar da pirataria. Quem em sã consciência daria credibilidade prum bando de fdp?
E como que da pra competir, digamos assim, com um outro país que realmente investe dinheiro nisso?
Posso até morder a língua, mas do jeito que anda a tecnologia, so vira mesmo o brasileiro que for trabalhar pra fora. Porque, de qualquer maneira, pra produzir uma coisa nossa teria-mos que terceirizar um programa gringo.
Ainda não vi motivo pra tentar viver disso, não no brasil. Ja fui retardado o suficiente pra me formar em publicidade. rsrs
odeio adimitir ,mas o brasil só é o celero de talestos despediçado,que ficam aqui sem ganhar nada de vez em quando vem um yanke e leva eles embora… falou…