EVILGAMBIT´S LAIR

Shin Megami Tensei: Strange Journey - Análise por Duke Magus

Mais uma estranha jornada, no Nintendo DS, proposta por Duke Magus.

 

Shin Megami Tensei (abreviado “SMT” ou “MegaTen” de agora em diante por conveniência) sempre foi uma série cult. Complementando um enredo que obriga o jogador a pensar e decidir com dungeons complexas, dificuldade acima da média, mecânicas exóticas e elaboradas que imploram por guias e fazem jogadores casuais chorarem, é quase um milagre a série sobreviver nos dias atuais… O que deu razõe$ para a Atlus criar spinoffs mais populares (ou eu devia dizer “digeríveis”) como as séries Persona e Digital Devil Saga, mas vamos nos focar na franquia principal.

Opinião, escolha causa e conseqüência… Desde a remota geração 8-bits, a Atlus usa (e abusa) desses elementos nos SMT, e mais de uma vez ela te deu a chance de matar o Messias, Deus ou Lúcifer para seguir o seu caminho.

 

Quebrando probabilidades e levando até os últimos extremos as próprias escolhas, Shin Megami Tensei perdeu o número, mas não a essência. Damas e cavalheiros de todas as origens e crenças, eu vos apresento o quarto herdeiro legítimo da série MegaTen: Strange Journey.

Última esperança da humanidade… Outra vez

 

Shin Megami Tensei: Strange Journey é um RPG desenvolvido pela Atlus para o Nintendo DS em 2009. Num futuro próximo, uma anomalia sem nenhum precedente aparece no Pólo Sul. Denominada “Schwarzwelt” (literalmente “mundo negro” em alemão), quando ela começou mal tinha um metro de diâmetro, mas agora já está quase devorando toda a antártica, e não para de crescer. O que ela é? Não se sabe. Como surgiu? Não se sabe? O que tem dentro dela? Não se sabe. Como destruí-la? Não se sabe… O que se sabe? Se continuar assim vai devorar o planeta inteiro.

Para tentar “salvar o mundo” foram reunidos pela ONU os melhores soldados, cientistas e engenheiros de todo o mundo para conter o crescimento desta ameaça sombria. Equipados com a última palavra em tecnologia e as poucas informações concretas reunidas sobre o fenômeno, vocês embarcam em quatro veículos feitos especialmente para adentrar o espaço tomado pela Schwarzwelt e destruí-la.

 

 

Você controla um soldado americano (ou japonês na versão nipônica do jogo) que faz parte da equipe do Comandante Gore na “Red Sprite”, e logo antes de começar sua missão conhece a diligente cientista russa Zelenin e o mercenário latino-americano Jimenez, que lhe dão detalhes sobre a missão e o equipamento mais importante que você vai receber: a sua DEMONICA (”DEMOuntable Next Integrated Capability Armor”), uma veste que se adapta ao usuário e amplifica sua capacidade de combate e sobrevivência, além de poder receber inúmeros upgrades conforme a necessidade.

Contando com o melhor que a humanidade tem a oferecer em termos de pessoal e equipamento, vocês seguem rumo ao desconhecido. Mas (como esperado), algo dá errado, e logo na entrada as embarcações são separadas e atacadas por criaturas desconhecidas. A última esperança da raça humana fica a mercê destes inimigos até que uma entidade desconhecida lhe envia um “programa” para a sua demonica, que permite analisar e combater esta ameaça…

 

Com severas baixas e perdendo contato com o “mundo exterior”, começam outra vez as perguntas: Como sair da Schwarzwelt? Não se sabe. O que raios nos atacou? Não se sabe. Quem enviou o tal programa, e por quê? Não se sabe… O que se sabe? O destino da humanidade ainda está nas suas mãos, só que, além disso, você tem que cuidar de outros detalhes, como sobrevivência em ambiente hostil e contra um inimigo desconhecido. Assim começa sua longa, árdua e estranha jornada num mundo onde demônios são reais e humanos são a presa…

 

(OBS.: na franquia SMT, “demônio” é um conceito extremamente amplo, e engloba praticamente toda criatura sobrenatural/mitológica, o que inclui deuses pagãos, anjos, espíritos, monstros, heróis lendários de algumas culturas, etc.).

 

 

Pacto com o diabo…

 

O maior atrativo de Strange Journey é a progressão das mecânicas do jogo. No começo você se encontra em uma terra desconhecida, cercado de demônios, armadilhas, portas trancadas e passagens secretas sempre requisitando algo que você não tem para serem acessadas. Conforme você progride, faz upgrades na sua demonica para explorar melhor estes segredos, encontrar itens secretos, mais portas, paredes falsas, demônios que precisam de alguém pra fazer o “trabalho sujo deles” (e dispostos a pagar muito bem por isso), etc. nesse ponto o jogo lembra vagamente a série metroid: faça progresso, consiga uma habilidade nova, volte tudo e descubra um segredo. Trabalhoso? Sim… Mas recompensador.

 

Falando em demônios, um aspecto único da série Shin Megami Tensei é que não é porque eles são o inimigo que são totalmente ignorantes, e para eles, você é tão ameaçador quanto interessante. Logo, boa parte deles está disposto a “conversar” com você, e se você for bom de papo (e suborno) eles podem formar um pacto com você e lutar ao seu lado.

 

O que torna as coisas um pouquinho mais complicadas, é que os demônios têm alinhamentos e personalidades distintas, e quase sempre não fecham muito bem com as suas. Além disso, a maioria das perguntas que eles fazem não tem certo ou errado, daí vai do seu bom senso (ou falta dele) ganhar a confiança da criatura…

 

Exemplos de perguntas:

- O seu mundo está em um estado deplorável. O que você pretende fazer quanto a isso?
- Você tem medo de demônios? Tem medo de mim?
- Você prefere jogos modernos ou retrogames? (não, isso não é piada minha)

 

90% das perguntas tem três respostas: uma afirmativa, uma negativa e uma “alternativa”, que torna as coisas bem mais imprevisíveis… Exemplo: se um demônio pergunta se você gosta de mulheres você pode dizer sim, não ou mentir que você É uma mulher… As conseqüências de fazer essa piada com o espírito de um samurai ou uma fera mitológica você já deve imaginar…

 

 

FUUU-SÃO!

 

O segundo diferencial, e um dos maiores atrativos do game é a capacidade de fundir seus demônios. O resultado, além de normalmente ser mais poderoso, ainda pode “herdar” algumas skills das “bases” usadas. Normalmente, há limites para isso (não tem como uma divindade do fogo herdar uma magia suprema de gelo, por exemplo), mas mesmo assim, como normalmente os demônios não aprendem skills novas, é um modo interessante de customizar o seu time.

Falando sobre os limites, os mais atenciosos notaram a palavra “normalmente” na frase. O caso é que conforme você analisa e evolui seus demônios, eles podem lhe dar itens especiais chamados “sources”. Tais itens possuem a essência do demônio em questão, e podem ser adicionados em qualquer fusão, e transferir para o resultado do processo certas skills independente das limitações. Isso permite uma flexibilidade incrível, como fazer fantasmas imunes a exorcismos, ensinar magias poderosas para um orc ou mesmo reverter a fraqueza da já citada divindade do fogo e de quebra fazer ela drenar ataques de gelo.

 

 

Isso é importante por causa do modo como as batalhas são guiadas no jogo: fraquezas e resistências são MUITO mais importantes do que o padrão dos RPGs. Assim, se você acertar a fraqueza de um inimigo, além do dano extra, todos os demônios do mesmo alinhamento que o atacante se juntarão para fazer um Demon Co-Op: um ataque bônus que ignora qualquer resistência e fica mais forte conforme os membros que participarem. Assim, você pode usar um demônio bem fraquinho, mas com alinhamento compatível com o do resto do time apenas para explorar a fraqueza do inimigo e causar um dano monstruoso com Co-Op. Como além de fraqueza os demônios podem ser resistentes, imunes ou até mesmo DRENAR certos ataques/elementos então combinar demônios e sources para deixar seu time pronto para os próximos perigos se torna algo bastante complexo… E divertido.

 

 

“This game contains elements of explicit retrogaming and grind”

 

SMT Strange Journey foi um jogo produzido numa época onde o saudosismo estava em alta, e pegou carona na idéia, usando sistemas e conceitos comuns aos dois primeiros SMT do Snes e evoluindo na medida do necessário. Infelizmente, a “essência” mantida carrega consigo alguns defeitos que são toleráveis para quem efetivamente passou por aquela época (AKA quem jogou algum RPG na era 8/16 bits), mas quem tem menos paciência ou se acostumou com RPGs mais fáceis, lineares e/ou “bonitos”, vai acabar se frustrando muito.

 

Primeiro que, se por um lado o demon design é muito interessante e o fato de 90% dos inimigos serem animados (o que lembra VAGAMENTE, e eu disse VAGAMENTE o que foi feito nos remakes do dragon quest), por outro a esmagadora maioria dos elementos chaves do enredo (NPCs, eventos, batalhas, etc) se destacam pouco do resto. em diálogos, todos os personagens usam a mesma “figura”, sem mudar expressão independente de estarem comemorando uma vitória ou a beira da morte. se o personagem for secundário, a coisa piora um pouco, e todos usam os mesmos sprites “padrão”. Mesmo quem cresceu vendo sprites 2d “andando sem sair do lugar” e imaginando que eles estavam operando máquinas ou dançando, sabe a falta que faz gráficos mais “específicos”, ainda mais em jogos em primeira pessoa. Saudosista que seja, querendo ou não os tempos mudaram… ver o mesmo esboço de sorriso em um personagem numa cena em que ele está sendo torturado não chega a ser um defeito, mas deixa aquela sensação de “podiam ter se esforçado mais” •

O segundo problema, e novamente, não chega a ser um defeito, é que o jogo exige um pouco de “grinding”. Mais de uma vez você vai precisar parar de explorar a Schwartzwelt para dar umas voltas por aí para juntar experiência, “material de fusão” e itens. Para o jogador mais “hardcore” isso vai ser quase natural, pois você vai perder dias recrutando demônios e fazendo fusões, mas para quem só quer saber o destino da tripulação da red sprite, vai acabar sofrendo MUITO nas mãos dos inimigos, e eu nem falei dos chefes… Para melhorar, todos os itens feitos na “loja” da red sprite (lab) requerem “materiais” encontrados no mapa E ao derrotar demônios, então se você quiser aquela roupa imune a gelo ou a metralhadora capaz de matar inimigos em um único ataque é melhor se preparar para uma longa excursão no quinto dos infernos.

 

Por fim, ele sofre da mesma “síndrome de roleta russa” que o resto da série. Explicando: praticamente NADA no game tem 100% de chance de funcionar: fusões, ataques, até mesmo conversar tem chance de dar errado.

Exemplo: digamos que você fale algo para um koppa tengu que tenha dado um resultado positivo uma vez. Você pode encontrar outro koppa tengu, ele falar exatamente a mesma coisa, você dar a mesma resposta e ele ficar irritado com você e te atacar no meio do papo. Isso sem contar quando ao recrutar demônios você bajula, dá todos os itens, HP, MP e Macca que ele pedir e no final ele só diz que “mudou de idéia” e cai fora.

 

O uso disso no sistema de batalha virou uma faca de dois gumes: inimigos que tem ataques com 50% de chance de matar todos os seus aliados na hora ou fazer eles se voltarem contra o time realmente quebra a monotonia, e dependendo do inimigo você prende a respiração em cada turno. Por outro lado, vai ter muita gente querendo quebrar o DS depois de ter a “azar” de levar um instant-kill do nada depois de 30 minutos contra aquele chefe apelão.

 

 

To hell and beyond

 

Com um bom overall, ênfase no enredo e ambientação, 3 finais diferentes, dezenas de side quests e ainda vários “achievements” para conquistar, Strange Journey é sem dúvida um bom RPG, e um ótimo modo de conhecer o universo caótico e conflitante desenhado por Kazuma Kaneko.

O destino do mundo está em suas mãos. MOVA-SE SOLDADO!

 

Shin Megami Tensei: Strange Journey - Atlus - Nintendo DS - Análise de jogo por Duke Magus

 

5 Comentários

  1. churrumino 28, junho 2010 14:41

    Eu não sei se eu comecei pelo errado, mas o primeiro dessa série Shin Megami Tensei que eu peguei foi o Persona 3.

    Achei insuportável aquele negócio de ter que ficar fazendo amizade com as pessoas pra melhorar os atributos e tal, muito chato.

  2. Duke Magus 28, junho 2010 21:10

    Sim, tu começou pelo errado… pelo MAIS ERRADO POSSÍVEL!

    tenta jogar o nocturne ou o digital devil saga quando der… são mais antigos, mas BEM melhores

  3. urameshi 28, junho 2010 22:01

    cara um dia vou dar uma chance para esses shin megani.de tanto que o dukemagus ama esses jogos.

  4. Duke Magus 29, junho 2010 14:04

    vale o risco urameshi, mas comece pelo nocturne ou strange journey. os primeiros são hardcore demais, e persona NÃO É SHIN MEGAMI TENSEI!

    Explicando: a série principal é “shin megami tensei”, onde “o mundo é mais importante que quem o habita”. por isso sempre o destino da terra está em jogo e o personagem principal é só parte de um esquema maior

    daí tem uma série “alternativa” chamada “megami ibunroku”. nela se enquadram os personas e o devil survivor. nessas o “personagem é mais importante que o mundo”, e o foco é na personalidade e conflitos internos dos protagonistas.

  5. Enzo 29, junho 2010 19:41

    Ippon-datara > todos outros demônios do jogo.
    E haja grinding >.>

Deixe um comentário (construtivo)

Mexico