| Street Fighter 2 The World Warriors - Capcom - Super Nintendo - Análise por evilgambit |
Em 1992 o Super Nintendo era o grande objeto de desejo para muitos gamers. Colaborou muito para isso o impressionante port de Street Fighter 2 para o console.
Anunciado com estrondo pela Famitsu como a grande exclusividade que iria mostrar o verdadeiro poder do recém lançado 16bits da Nintendo e lançado em 1992 no Japão e EUA, Street Fighter 2 foi o jogo que fez muita gente optar pelo Super Nintendo numa época em que o Mega Drive já estava estabelecido como o console da nova geração (dos 16bits) e com uma imensa gama de bons títulos disponíveis.
Para falar da grandiosidade deste jogo eu poderia estar comentando a versão original do arcade. Mas é a versão do Snes que fica vívida em minha mente quando o assunto é o famoso "The World Warriors". Com pomposos e precursores 16 megabits contidos no cartucho (foi o jogo mais caro da época, bom lembrar), Street Fighter 2 é uma generosa conversão do arcade: convincente e competente, bem diferente da adaptação anterior da Capcom: Final Fight, conversão que pecou em diversos aspectos.
O conteúdo mantém-se intacto, 8 guerreiros marciais cada qual com sua motivação, cenários e características próprias. São eles:
Ryu- Karateca japonês que segue a doutrina de Miyamoto Musashi. Sempre em busca do mais forte e do aperfeiçoamento físico e mental. Na vida deste individuo nada é mais importante que a luta franca!
Ken- Amigo de infância de Ryu, como ele teve o lendário Gouken como mestre. Após o treinamento na tenra idade, voltou aos pais que moram nos EUA e passou a dividir sua vida entre os afazeres de playboy e o aperfeiçoamento das artes marciais pelos métodos convencionais (torneios oficiais, etc). Tem a mesma técnica de Ryu, mas tende a ser mais exibicionista.
Guile- Milico norte americano que quer vingar a morte do amigo morto. É brutalmente forte, ágil e disposto a tudo para lavar suas mãos com o sangue de Vega.
Chun Li- Chinesa muito mal vestida que quer vingar a morte do pai, que era oficial da justiça e foi morto a mando de Vega quando ele investigava atividades ilícitas do mesmo.
Edmond Honda- Lutador de Sumo, obviamente nativo do arquipélago japonês, quer provar a supremacia quase divina do sumô-tori perante todas as outras artes marciais.
Blanka- Teoricamente brasileiro, sobrevivente de uma queda de avião na região amazônica. Misteriosamente é verde, tem o cabelo da Elba Ramalho e pode manipular eletricidade. Se tivesse caído na região de Angra eu até entenderia. Luta por lutar e acaba tendo uma bela descoberta após sagrar-se campeão mundial.
Zangief- Nativo da ex União Soviética, esse gigantesco lutador quer provar no finalzinho da cortina de ferro que os comedores de criancinhas são os fodões.
Dhalshin- Indiano, mestre de Yoga, contradiz o preceito pacifista ao ingressar no torneio para conseguir dinheiro para ajudar a pobre vila onde reside. Resumidamente é mais um guerreiro que quer provar os próprios preceitos mundialmente, da maneira errada no caso.
Todos eles duelarão entre si até sobrar apenas os 4 cavalheiros não selecionáveis pelo jogador, os famosos 4 chefões de Street Fighter 2. É interessante lembrar que os nomes destes 4 personagens mudam na versão ocidental do jogo. O problema reside na "homenagem" que a Capcom queria prestar para Mike Tyson ao nomear o violento boxeador como Mike Bison, o que fodeu tudo é que em idos de 1991 e 1992 o boxeador (da vida real) teve muitas tretas pessoais e acabou preso, para evitar maiores problemas do departamento jurídico da Capcom norte americana, eles mudaram os nomes da seguinte forma (isso vale para todas as versões da série):
Versão japonesa Versão americana
M. Bison Balrog
Balrog Vega
Sagat Sagat
Vega M.Bison
O violento boxeador M. Bison é o afro-americano banido da federação de boxe por ser extremamente violento. O espanhol Balrog é um lutador de arena com tendências homicidas e narcisistas. O ex campeão derrotado por Ryu em Street Fighter, Sagat, retorna como o penúltimo adversário no belo cenário tailandês. O último desafio do jogo é o patrocinador do campeonato e o cabeça de uma grande organização criminosa internacional: Vega tem poderes psíquicos, pode literalmente voar e se acha o Hugo Chaves do sudeste asiático.
A mecânica do jogo obedece o 1x1, com direito a pulo em 3 direções acionados com direcional, defesa manual bastando levar o direcional à direção contrária do golpe recebido e 6 botões disponíveis sendo que 3 são chutes e 3 soco (gradualmente fraco, médio, forte). O que torna Street Fighter 2 um marco na industria dos videogames é a complexidade oferecida aos jogadores, não só pela impensada quantidade de botões para a época mas pelas inúmeras possibilidades que os jogadores tem a disposição. Golpes especiais são acionados aliando comandos no direcional e botões, combinações de golpes podem ser montadas se o jogador efetuar os golpes no timming correto e mais importante, cada um dos 8 personagens tem estilo, golpes, pontos fracos e fortes próprios. Você pode começar a jogar com o Blanka por exemplo e terá aprendido a mecânica básica do jogo, mas se resolver experimentar outro jogador, terá que reaprender quase tudo novamente dada as enormes diferenças entre os personagens.
A trilha sonora é cativante, ajudando a dar o clima correto dependendo da nacionalidade do embate e proporcionando um link emocional muito forte com o personagem. O jogo é recheado de vozes digitalizadas, indo do anunciante das lutas aos gritos e "kiais" esbravejados pelos honrosos lutadores, tudo em qualidade boa para o hardware disponível na época e em quantidades mais que generosas.
A adaptação do jogo para os 16 bits da Nintendo não foi indolor. Apesar de todos os personagens, cenários e golpes estarem presentes no cartucho, limitações são observadas na parte gráfica e no aspecto sonoro. Mais evidente é a diminuição do tamanho dos personagens, resolução inferior em TUDO, a falta de certos elementos em alguns cenários (uma palmeira aqui, um elefante acolá) e o corte de muitos frames de movimentos (em especial no pulo do Guile, essa doeu). A trilha sonora mantém-se no mesmo nível, pode-se dizer que foi muito bem adaptada para a versão caseira, mesmo obviamente não estando equiparada à versão original pois a musica nos momentos finais da luta mudava, ficando mais agitada, na versão do Super Nintendo ela fica apenas mais rápida. Algumas falas do narrador foram suprimidas, as falas dos lutadores mantém-se quase que totalmente como no original mas com notável qualidade inferior e com diferenças: quando você efetua um hadouken com o soco fraco, a voz é mais "lenta", com o soco forte ela é mais "rápida". O final de alguns personagens é levemente diferente, outros tem ilustrações e animações extras.
A jogabilidade é quase mesma do arcade. A diferença reside em pequenas nuançes como a velocidade minimamente diferente e a mudança de balanceamento e "tempo" de alguns golpes que acabam por impossibilitar algumas manobras e combos na versão nintendista. No geral o jogo tem a mesma arquitertura, mesmos golpes e o mesmo brilhantismo & complexidade.
Mesmo citando todas essas diferenças não dá para torcer o nariz para essa bela conversão. Até porque isso é muito mais notável HOJE, época em que os hardwares dos consoles caseiros se equiparam e superam os arcades atuais. Mas em 1992 poder jogar Street Fighter 2 na comodidade do lar com tamanha similaridade, principalmente na jogabilidade, era um sonho que poderia ser realizado dependendo claro da renda dos pais do jogador. O cartucho ainda contava com truques exclusivos como a possibilidade de jogar com personagens iguais no modo VERSUS (isso só foi possível na versão Champion Edition, nos arcades) e truques mais obscuros como jogar sem a barra de energia por exemplo.
Street Fighter 2 - The World Warriors do Super Nintendo reafirmou a competência da Capcom, que conseguiu portar com dignidade um dos maiores jogos da época (em termos técnicos e qualitativos) para uma plataforma recente e que precisava mostrar algo que o concorrente até então não tinha feito. Quem viveu essa época se lembra das locadoras lotadas, do frenesi em torno do Super Nintendo e da disputa que era locar o título nos finais de semana. Foi um dos melhores jogos do console, ótimo para reunir os amigos e iniciador de uma série de clones (bons e ruins) no estilo que manteve-se entre os mais populares até a chegada dos consoles que dominariam os recursos em 3 dimensões.