| Fable: The Lost Chapters - Lionheart Studios - PC/XBOX - análise por Duke Magus |
Desde os mais primordiais títulos lançados para os pré-históricos consoles de
8-bits jogar um game de RPG era como fazer parte de uma história épica: Havia o
cavaleiro da armadura brilhante que salvava a princesa, matava o dragão, era
aplaudido e amado pelo povo e se tornava o maior herói de todos os tempos. Ver
isso é bom, mas melhor ainda é SER isso. Você controla o herói, sente o calor da
batalha contra a fera, recebe os sinceros agradecimentos do povo e um beijinho
da princesa, e pode dizer satisfeito “Sim, eu sou um Herói”. Essa fórmula
funcionava muito bem até certo tempo atrás. Não estou dizendo que ser um herói
parou de ser legal. Qualquer Final Fantasy mostra o quanto é legal ser o
salvador do mundo. Porém de uns tempos pra cá começou a crescer o número de
jogadores que queriam que a história ficasse mais “a sua cara”. “Por que matar o
dragão? Por que salvar a princesinha enjoada? E se eu domasse o dragão, tomasse
a princesa como refém e pedisse um gordo resgate?”
Desde a segunda metade da década de 90 os games de RPG com maior liberdade de
ação ficam mais numerosos e populares. Você ainda pode ser o cavaleiro da
armadura brilhante, mas também pode ser um mercenário que só trabalha para quem
pagar mais, ou ainda ser tocado pelo “lado negro da força” e trazer morte e
destruição por onde passa...
Seguindo piamente essa receita surge um game que mantém até o fim a liberdade do
jogador. Senhoras e senhores, eu Apresento-lhes Fable: The lost Chapters.
Fable: The Lost Chapters é um jogo de RPG/Aventura lançado em 2005 pela
Microsoft Games e Lionheart Studios para Xbox e PC e desde o início de sua
divulgação todo o game foi resumido com uma singela frase: “Para cada escolha,
uma conseqüência”. E efetivamente esse conceito foi seguido à risca, e nunca deu
tão certo quanto nesse game. Nele você controla um Herói, que deve ser
desenvolvido pelo jogador desde sua infância até a velhice. O game tem como
principal atrativo a sua liberdade ou desenvolver o personagem, tanto nas suas
habilidades quanto no seu alinhamento. O jogador desde o começo do jogo tem o
direito de escolher se quer ser bom ou mau, podendo se corromper ou redimir
dependendo dos seus atos. Ok, isso já foi tentado antes, mas sempre acabava com
algumas falhas capitais: você poderia ser o diabo encarnado que a única
diferença seria uma quest aqui ou ali e ninguém nunca parecia ligar se você
tivesse salvado uma cidade ou assassinado o rei. Aqui você vê a reação dos
cidadãos, que podem aplaudi-lo, xinga-lo ou mesmo sair correndo de medo. Seus
gestos e até mesmo sua aparência mudam de acordo com o seu “karma”
O enredo é cheio de clichês e histórias manjadas do começo ao fim, mas tudo foi
tão bem construído que faz a história especialmente cativante e divertida. Você
começa vivendo a infância de seu herói, mais especificamente no dia do
aniversário da sua irmã. Nesse ponto já dá pra sentir o “espírito da coisa”:
você precisa juntar algumas moedas para comprar um presente para sua irmã, e
você pode juntar essa grana tanto bancando “o bom samaritano” como “o garotinho
safado”. Terminada essa introdução, a sua vila é atacada, toda a sua família
morre e você é salvo por um grande mago. Esse mago te leva para viver na Guilda
dos heróis, onde você será treinado para ser um herói. É aqui que a jornada
realmente começa (o guerreiro com um passado cheio de perdas... acho que já vi
isso em algum lugar...).
Apenas dois lembretes antes de começar novamente:
- SER UM HERÓI NÃO SIGNIFICA SER BONZINHO! Nesse jogo ser heróico é ser
conhecido, fazer grandes feitos e se tornar uma lenda, o que não te obriga a
ficar salvando donzelas em perigo se tiver algo diferente em mente. Acho que o
maior exemplo disso é o lendário Sephiroth de FF7, que mesmo sendo o grande
vilão da história é um personagem tão legal que muita gente dá mais destaque pra
ele do que para o Cloud, que salvou o mundo.
-Como eu já disse antes, o grande destaque do game é a capacidade de customizar
o seu herói, mas vale lembrar: VOCÊ NÃO O CRIA! VOCÊ O DESENVOLVE! Diferente de
games como Neverwinter Nights, a customização do seu personagem é feita no
decorrer do game. Quer um cabelo mais bonito ou assustador? Vá à barbearia.
Precisa de uma armadura que combine mais com você? Compre na loja. Tudo é
infantilmente simples de lidar, embora não faça mal algum explicar como se
desenvolve o personagem nesse game:
Para evoluir você gasta experiência para desenvolver suas habilidades ou comprar
poderes novos. Simples de entender e de fazer, o ponto original é que existem 3
disciplinas de habilidades: Strenght (força e resistência física), Skill
(precisão e agilidade) e Will (os grandiosos poderes da Vontade representam as
magias do jogo. Por algum estranho motivo eu lembro de Star Wars sempre que falo
isso.) e cada um conta com sua própria experiência. Então, se quiser ter
feitiços poderosos é melhor treinar seu lado mágico ao invés de ficar matando
todos os seus inimigos com a sua espada...
Além obviamente de melhorar desempenho, cada melhoria que você faz no seu
personagem muda sensivelmente sua aparência. Se você evoluir muito suas
habilidades físicas ficará mais musculoso, se treinar o seu lado mágico verá uma
aura luminosa envolver as suas mãos. Ser habilidoso te torna mais esguio e com
uma postura diferente, etc.
Junto com o isso ainda há o seu caráter, que também reflete na sua aparência: se
você um grande defensor dos fracos, pobres e oprimidos, seu cabelo vai clarear e
borboletas irão voar ao redor de você. Dá até para chegar ao ponto de você ser
envolvido por uma luz divina e ganhar uma auréola. Já se o seu herói for um
assassino cruel, impiedoso, e esbanje maldade, você verá pequenos chifres em sua
cabeça e as moscas o rodearem (não, não é falta de banho). Em casos extremos,
quando o diabo der pulinhos de alegria quando te ver passar na rua, seus olhos
ficarão vermelhos e sua pele ganhará um tom assustador.
Além disso, ainda há algumas coisas secundárias para escolher, como o título
heróico pelo qual o povo irá te conhecer. Se você for um grande mago poderá se
proclamar “runemaster”, ou quem sabe “assassin” se você for mais... Digamos...
Assassino! Também é possível se casar e escolher a opção sexual do seu herói.
Sim, pela primeira vez você poderá criar um herói gay ou mesmo bissexual! Dá até
pra casar com homem e tudo o mais...
(NOTA DELETÁVEL: Para completar uma quest tive que fazer meu grande guerreiro
usar vestido e peruca de drag queen, e como se não bastasse ainda me prostituí
para conseguir dinheiro e comprar minha armadura... Todo herói tem seus segredos
obscuros...).
Por fim você ainda pode se decorar com diversas tatuagens em diversas partes do
corpo, o que é útil para esconder as cicatrizes das suas batalhas. Falo disso
mais tarde
Com tudo isso, você pode fazer seu Herói de uma infinidade de maneiras, desde os
estereótipos mais comuns como “O Cavaleiro da Armadura Brilhante” ou “O Maléfico
Mago das Chamas do Inferno” passando por escolhas menos populares como o ladrão
desbocado e sorrateiro, o bárbaro destruidor, etc. Já que o jogo praticamente
não oferece restrições sobre a customização, você pode fazer qualquer combinação
que desejar, e é muito difícil não conseguir arrumar um personagem que fique “do
seu jeitinho”. Você pode fazer um feiticeiro-arqueiro, um mago truculento com
cabelo e tatuagens de bárbaro, etc. Tudo bastante simples e intuitivo.
Fable é um jogo de RPG e aventura, os dois gêneros mais dependentes do ambiente
que o personagem habita para seu sucesso. RPGs onde o cenário da aventura é
pouco convincente acabam se tornando maçantes e jogos de aventura sem ter
elementos que cativem o jogador são esquecidos rapidamente.
O mundo de Albion, palco das aventuras do seu Herói é um mundo amplo e bem
estruturado, com sua própria cultura, lendas habitantes, cidades, etc. Tudo tem
uma aparência levemente fora do real, mais “amigável” por assim dizer.
O desenrolar da história e boa parte de tudo o que você vai fazer nesse mundo é
organizado em quests, que são divididas em três categorias: principais (ligadas
diretamente com o desenrolar da história) secundárias (podem dar detalhes sobre
o enredo, ou apenas ser mais um ato heróico por ser feito) e opcionais (favores
menores ou mini-games). E confie em mim: são MUITAS quests para fazer. Desde se
infiltrar num bando de ladrões até um concurso de pescaria!
Se você cansar das quests, ainda possui muito com o que se ocupar, como tentar
encontrar as silver keys (chaves que abrem baús especiais espalhados em todos os
cantos do jogo), desvendar as charadas das Demon Doors ou caçar tesouros
escondidos.
Com certeza dá para se divertir muitas horas em Albion.
Fable foi muito aclamado na comunidade gamer, chegando até mesmo a ganhar o
título de Jogo do Ano por algumas revistas. E pela qualidade e acabamento da
obra tudo o que eu posso dizer é que foi mais do que merecido.
A parte gráfica do jogo é extraordinária! Tudo é bem feito, com texturas
polidas, efeitos na medida certa e um visual levemente caricato, que atrai
bastante aquela criança de 12 anos viciada aventuras épicas que todo o jogador
tem dentro de si independente de já ter passado dos 30. Destaque para os
personagens. Todos com movimentos suaves e realistas e o herói em especial
possui um número muito grande de detalhes! Até mesmo as cicatrizes das suas
batalhas podem ser vistas em seu corpo!
O som realmente ajuda na imersão do jogador, com músicas bem ambientadas, apesar
do pouco destaque. A dublagem é excelente, com vozes que combinam perfeitamente
e diálogos bem encenados (existem raras exceções em que os dubladores parecem
não ter nenhum amor pelo trabalho, mas essas são tão poucas que dá para contar
nos dedos de apenas uma mão).
Esse é um dos jogos que explora todo o potencial do Xbox, mas na versão pra PC
eu já vou avisando, você vai precisar de uma máquina MUITO poderosa para ver
tudo no seu maior esplendor (eu com uma placa de vídeo de 256 MB PCI express
tive que jogar com Antialiasing sombras dinâmicas desligadas.) Eu acredito que
com 1GB de Ram e uma placa de vídeo de alto desempenho dê pra deixar a versão de
console no chinelo!
A jogabilidade é ágil e intuitiva, mas faz falta mais botões de atalho (apesar
de os atalhos de magias serem úteis, ficar girando o scroll do mouse para
procurar o feitiço certo pode custar caro em situações difíceis)
Fable é grandioso, épico, magistral. “Fabuloso” pode se dizer, mas não é
perfeito.
A liberdade dada ao jogador acabou vindo com um custo: existe um número
relativamente baixo de habilidades para fazer o seu personagem, além de ser tudo
genérico demais. Praticamente todas as magias são “campeãs de popularidade”,
como Bola de fogo, Relâmpago, escudo mágico... Tudo aquilo que se vê em quase
todos os MMORPGs ou livros com contos medievais. Algumas magias mais criativas e
originais não fariam mal algum.
Outro ponto que não chega a ser um defeito, mas não ajuda muito é o baixo nível
de desafio do jogo. É baixo demais! O game foi feito de forma que você não tenha
a necessidade de parar de seguir o enredo pra treinar. Se você perder algumas
horas se fortalecendo vai acabar sentindo como se pudesse fazer tudo com uma mão
nas costas.
Por fim, o jogo é muito preso nas quests. Às vezes parece que a história da sua
vida não passa do seu envolvimento com os trabalhos heróicos oferecidos na
Guilda dos Heróis. Você ainda pode fazer bastante coisa entre uma quest e outra,
mas isso não parece ter grande impacto.
Fable: The Lost Chapters é um jogo indispensável para qualquer fá de RPG,
Aventura ou que ainda tenha a capacidade de ver as coisas com os olhos da
juventude. É verdade que atualmente existem jogos melhores e mais “Adultos” que
seguem a mesma linha de raciocínio. (como diz o meu vizinho, Fable é “uma
criança brincando de herói” se comparado com o último Elder Scrolls). Acima de
tudo, esse jogo proporciona um entretenimento simples e leve como a tempos não
se via. Enfim, só posso desejar boa sorte para você em criar a sua própria
fábula e tornar-se a maior lenda do mundo de Albion.
