Dragon Quest  - Enix  - Nintendo/MSX/SNES/GBC  - Análise por evilgambit

Muita gente me cobra, desde que a EGL mudou de um site de abastecimento de roms para o de análise de jogos (filmes e mais algumas coisinhas), textos sobre minhas séries preferidas. As mesmas que desde 1999 me fazem doar boa parte do meu tempo livre neste delicioso hobby!

O problema é que se escrever já é difícil e demanda bastante treino e persistência para adquirir boa qualidade de redação e coerência, imagine escrever sobre uma paixão? Eu travo em meio a elogios exacerbados e pouco equilíbrio. Mas eu acho que já é hora, este site precisa e deve homenagear minha série de paixão: Dragon Quest.

Dragon Quest é considerado o alicerce dos rpg´s dos consoles e é o primeiro rpg japonês, que serviu de base para todas as outras séries (inclusive Final Fantasy). É sem exagero é a série mais popular e amada no arquipélago japonês, superando recordes de vendas a cada edição e surpreendendo com remakes que chegam a vender mais que seus concorrentes diretos. Qual o segredo de tamanho sucesso? E porque ele é quase que totalmente exclusivo entre os japoneses?

Yuji Horii, na Enix, teve a brilhante idéia de capturar elementos de rpg dos jogos de PC da época como a visão superior de exploração em mapas e as batalhas em primeira pessoa com toda a complexidade de estrutura típica destes jogos e sabidamente inseriu em uma plataforma de massa, o Famicon (Nes japonês). Na época não existia nada parecido para o console, jogadores que quisessem um jogo complexo desses teria que gastar uma pequena fortuna em um computador pessoal. As batalhas em primeira pessoa eram aleatórias e ocorrem no mapa ou dentro de locais inospitos maselas se desenvolvem rapidamente e demonstravam o traço caracteristico e criativo do desenhista Akira Toriyama (criador de Dr Slump e Dragon Ball), desde o primeiro Dragon Quest ele é responsável pela forma e cor de todos os personagens e monstros da série. Já temos uma estrutura de jogo inédita nos consoles, mecânica diversificada, complexa e desenhos concebidos por ninguém menos que Toriyama-sama. O que falta? A cativante trilha sonora composta por Koichi Sugiyama que dá o clima épico correto e imersivo que um role playing game necessita e que foi muito bem realizada explorando de forma hábil a ínfima capacidade sonora do console.

Quando o jogo debutou em 1987 no mercado japonês ele fez nascer o gênero, hoje tão popular, o J-RPG. Os jogadores japoneses ficaram malucos com o sistema de evolução de força e aprendizado de magias do herói, as inúmeras cidades para visitar, a grande variedade de inimigo, equipar, comprar e vender armas e outros bagulhos para no final enfrentar um épico vilão e salvar o dia (e a princesa). Uma série de clones surgiram em seguida, mas nenhum conseguiu captar a essência simplista e carismática de Dragon Quest. Alguns anos mais tarde quando Legend of Zelda foi lançado nos EUA e este foi um sucesso estrondoso, a Nintendo percebeu que um jogo com jogabilidade complexa e com resolução de puzzle havia vingado em um mercado promissor e grande como o norte americano, logo se prontificou a trazer Dragon Quest para os rosados, coisa que a Enix não poderia fazer visto que ela não tinha representantes e escritórios fora do Japão.

A Nintendo preparou um lançamento grandioso, Dragon Quest se transformou em Dragon Warrior, o jogo recebeu inúmeras mudanças:

- O nome de magias, personagens e monstros foi alterada.
- Os gráficos receberam upgrade, com sprites diferenciados e com mais detalhes.
- Bateria para salvar os progressos.
- Trilha sonora com arranjos levemente diferentes.
- O inglês da versão norte americana é britânico e pomposo.
- A embalagem não continha ilustrações de Akira Toriyama, este um completo desconhecido nos EUA no final da década de 80.
- A casa de massagem "PUF PUF" foi extirpada da versão rosada

O lançamento foi um fiasco, os poucos jogadores que adquiriram o cartucho não gostaram da defasagem gráfica, da falta de ação e estranharam bastante o trabalhoso processo de evolução do personagem com inúmeras e porque não afirmar, monótonas batalhas uma atrás da outra. Com muitos cartuchos estocados e já contabilizando um prejuízo enorme, a Nintendo passou a dar o cartucho para futuros assinantes da famosa revista Nintendo Power. Milhões de americanos adquiram o jogo desta forma, e foi assim que pouco a pouco a série ganhou poucos mas fervorosos fãs, que fizeram a Enix investir em mais 3 jogos da série que foram lançados oficialmente em mercado americano, porém nenhum deles fez sucesso comparável ao obtido no Japão. Sempre foi uma série underground e permaneceu desta forma até meados do ano 2000.

Jogar Dragon Quest hoje soa arcaico e é até dolorido. Graficamente ele fica muito aquém do esperado se comparado aos grandes jogos do Nes. A trilha sonora apesar de encantadora na composição não conta com os chips extras que as outras softhouses colocavam em seus títulos e que melhoravam substancialmente a capacidade sonora do console e possui um plot extremamente simplista, onde um sujeito predestinado a ser "o" herói parte sozinho de cidade em cidade, coletando informações conversando com o povo, lutando contra monstros estáticos, tudo com uma dificuldade medonha que afugenta que aprendeu a gostar de jogos do gênero uma ou duas gerações de consoles depois. O que cativa em Dragon Quest é mesmo a simplicidade, algo extremamente raro em jogos do gênero hoje em dia, jogá-lo é um processo arqueológico e que pode entreter o jogador ávido para saber como tudo começou. Pessoalmente acho interessante a proposta do jogo, se você quiser prosseguir saiba que estará sozinho e terá que encarar ambientes realmente inóspitos, combater monstros que estarão em seu calço durante todo o tempo, e se quiser comprar uma arma mais forte terás que desembolsar um bom dinheiro, que custa para juntar. E o final é verdadeiramente épico e que gera lágrimas em que for jogar as duas continuações. (sim, diferente de Final Fantasy existe elos que ligam os enredos dos jogos da série)

O MSX ganhou um port do jogo, bem semelhante ao original do Nes. Na década de 90 a Enix lançou um remake para o Super Nintendo utilizando a engine gráfica de Dragon Quest V. Os gráficos receberam um belo upgrade, a musica ficou maravilhosa nos samplers do 16 bits da Nintendo e a jogabilidade e estrutura do jogo receberam adendos/facilidades interessantes que já estavam disponíveis nos jogos subseqüentes. O jogo foi lançado em duas formas, pela rede Satella View do Super Famicon, um sistema de distribuição de jogos via satélite que a Nintendo tentou criar para o console (somente no Japão) e no tradicional cartucho trazendo junto um remake para Dragon Quest II. Alguns anos mais tarde, Dragon Quest I&II do Snes foi portado para o Game Boy Color e este foi o único remake que ganhou uma versão oficial no ocidente.

Graças aos esforços de fãs na Internet, Dragon Quest I&II do Snes foi traduzido para o inglês por CRISRPG e orgulhosamente para o português pelas mãos e mente de ArchDemon, detalhes sobre o projeto e a tradução você confere clicando aqui.

Dragon Quest hoje pode não ser um jogo unânime no trato de cativar um público tão diversificado, mesmo assim há quem conheça o jogo hoje e consegue visualizar o segredo para estopim de tamanho sucesso. A simplicidade cativante, a jogabilidade que abraça somente o mais persistente, o carisma dos clássicos inimigos e uma fabulosa trilha sonora persistem até hoje e de forma melhorada nos remakes para Snes e Game Boy Color. É um jogo que deve ser experimentados por fãs do gênero, nem que seja para conhecimento, como bagagem no currículo de qualquer jogador que se preze.

Afinal clássico sempre será clássico.

 

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