Blood Will Tell: Tezuka Osamu's Dororo - Sega - Playstation 2 - Análise por Ninja

Se liga na história: No Japão antigo, a clássica batalha entre o bem e o mal era travada entre deuses e demônios. As forças sempre se equilibraram nunca um lado da balança pendeu mais que o outro, até o dia em que os deuses resolveram por fim a disputa unindo suas forças e criando um guerreiro poderoso o bastante para aniquilar um a um todos os demônios conhecidos como majins (fiends na versão ocidental), trazendo assim uma era de paz. Para carregar tal fardo, foi escolhida uma criança humana que futuramente teria o poder para eliminar da terra todas as criaturas malignas.

Cientes das intenções dos deuses, de criar um ser tão poderoso que ameaçaria a existência dos seres das trevas, os demônios resolveram intervir. Como a criança escolhida já estava prestes a nascer e sua chegada já era prevista pelos deuses a turma do capeta não viu outra opção a não ser tirar proveito de um ser tão poderoso mas que até então era inofensivo. E propuseram um acordo ao futuro pai do garoto, o prepotente samurai Kagemitsu Daigo. 

O tal acordo diz que Kagemitsu se tornará um guerreiro invencível em qualquer batalha e futuramente chegaria ao posto de lorde, comandando o Japão, contanto que cada um dos 48 majins tome posse de uma parte do corpo de seu filho que iria nascer. No alto de sua ambição e corrompido pelas promessas dos demônios o pai do garoto aceita o trato, e isso acontece. o menino nasce sem 48 partes do corpo, e os demônios, que desde o inicio não tinham nenhuma intenção de cumprirem sua parte no acordo simplesmente desaparecem. Kagemitsu frustrado e arrependido pelos seus atos se sente envergonhado pela atrocidade que cometera, coloca seu filho em uma cesta e o abandona jogando-o no rio...

A cesta com o garoto é encontrada por Jukai. Um monge/médico dotado de poderes psíquicos extremamente poderosos que ao ver a criança completamente deformada sente pena do garoto e decide acolhê-lo. Com o passar do tempo, Jukai percebe estranhos poderes na criança deformada, mesmo sem ter olhos, ouvidos, nariz  ou boca o garoto permanece vivo e consegue se comunicar! 

Percebendo que nenhum ser normal poderia estar vivo em tais circunstâncias, Jukai entende que alí existe um propósito, e resolve então ajudar o garoto. Com a ajuda de seus poderes mentais e habilidades médicas o monge faz uma série de implantes no corpo disforme do bebê, e passa a criar o menino como um filho lhe dando o nome de Hyakkimaru.

Alguns anos depois em seu 18º aniversário, Hyakkimaru ciente daquilo que lhe aconteceu e sabendo do seu destino, decide partir em busca dos majins e recuperar as partes do seu corpo que lhe foram roubadas. Para auxiliá-lo em sua busca Jukai implanta em seu corpo várias lâminas, incluindo uma bazuca (!!!) para que ele possa cumprir seus objetivos.

História difícil de engolir né? Mas enfim, esse enredo esdrúxulo e sinistro é obra de ninguém menos que Osamu Tezuka, conhecido por muitos como o "pai" do Astro Boy. É isso mesmo cambada, Blood Will Tell é nada mais que uma adaptação do mangá Dororo,  criado por Tezuka e publicado entre 1967 e 1968. Tezuka interrompeu a produção do mangá sem chegar ao desfecho história. Assim, quando Dororo ganhou uma série de animação de 26 episódios em 1969, a parte final da história foi criada pelos produtores.

Apesar de não ser muito conhecido aqui no ocidente, Dororo fez um sucesso tremendo, ao ponto de ganhar uma adaptação live-action dirigida por Akihiko Shiota. O filme foi lançado no início de 2007 ganhou vários prêmios, e se não me engano o DVD chega nas terras tupiniquins nos próximos meses, vale a pena conferir pois o filme ficou bem legal.

A raiva está à flor da pele. Mas o ódio vai até os ossos... Ou lâminas!

Logo no início, uma belíssima e caprichada abertura em CG, mostra o embate entre as forças do bem e do mal e ditam o clima da aventura, tudo é muito bem feito e a animação é de uma fluidez impressionante (lembrando que o jogo foi lançado em 2004).  Agora que tudo já está em seus devidos lugares chega a hora da carnificina. LET'S ROCK!!!

 

Não, não estou fazendo uma referência a Devil May Cry, apesar de que o estilo de jogo é bem semelhante ao do filho do Diabo. Em Blood Will Tell você estará na pele sintética de Hyakkimaru, munido de uma espada, várias outras lâminas e uma bazuca, tudo isso para acabar de vez com uma horda de violentos, asquerosos e não seria muito dizer estranhos inimigos. O sistema do jogo é bem simples, controle seu samurai enfurecido pelos extensos cenários destruindo tudo aquilo que faça um som do tipo "RROOOAAARRRGGHHH!!!" Em resumo Blood Will Tell é um game de matança frenética, entenda como uma mistura de Onimusha com  Resident Evil e umas leves pitadas de RPG. *Bottini Mode ON* "Mas espere, não é só isso!!!" *Bottini Mode OFF*

 

Muito mais para oferecer...

 

Se você é do tipo que torce o nariz para jogos do tipo "Kill 'Em All" Onde seu único objetivo e matar e destruir tudo que se mova, e por ventura já fez cara feia ao ler o parágrafo anterior relaxe. Blood Will Tell é muito mais do que isso...

 

Como  foi dito, a história gira em torno do guerreiro que inicia uma jornada para destruir os demônios que o atormentaram e assim poder recuperar as partes do seu corpo que lhe foram roubadas, e tudo transcorre através de capítulos, esse talvez é um dos grandes trunfos do game. Para entender o que estou dizendo vamos pegar o comecinho do jogo como exemplo: A tela está em preto e branco, os sons são defasados e Hyakkimaru tem movimentos um tanto quanto limitados. A grande sacada foi usar as limitacões de Hyakkimaru como razão para progredir no jogo, dando continuidade na história! Saca só, no início a tela está em preto e branco pois Hyakkimaru não possui olhos "de verdade". Só depois de exterminar o primeiro majin que ele consegue seu olho esquerdo de volta é possível enxergar as cores.

 

O mesmo vale para os outros sentidos do personagem. Ao recuperar o olfato por exemplo, o joystick começa a vibrar sempre que algum inimigo se aproxima, sinal de que Hyakkimaru pode "sentir" a presença do inimigo, o mesmo vale para a audição. A movimentação do personagem também fica diferente quando se consegue de volta as pernas e braços, o tornando mais ágil e adicionando novos combos ao leque de ataques do herói. Isso mesmo, combos, são diversas formas de utilizar as armas que estão a sua disposição e quanto mais o personagem "evolui" mais variadas são as formas de dar cabo do seus inimigos. Provavelmente é nesse quesito que o game mais se destaca.

 

Outro fator importante a se observar são os personagens secundários, o que nos leva a pergunta que provavelmente você deve ter em mente: "Se a história gira em torno de Hyakkimaru, quem diabos é esse tal de Dororo?" É neste ponto que o jogo deixa de ser um simples "Kill Everything" e ganha uma amplitude um pouco maior, Dororo personagem que dá título a obra original de Tezuka é apenas um garoto (ou seria uma garota?) que sem nenhum motivo em particular encontra nosso Inspetor Bugiganga nipônico e acompanha Hyakkimaru durante sua jornada, proclamando-se "O maior ladrão de todo o Japão!"  Apesar de sua aparência frágil, atitudes cômicas e as vezes até mesmo irritantes, o pequeno ladrãozinho pode ser controlado em alguns momentos e futuramente sua presença na trama se revela ser de grande importância.

 

Apectos técnicos.

Os controles são bem simples e intuitivos,  provavelmente uma meia hora de jogatina já basta para ter  com segurança pleno controle sobre as ações do personagem, o sistema de combate é bem eficiente e divertido, disparar ataques desenfreados contra mais de dois inimigos ao mesmo tempo chega a lembrar por alguns instantes o quebra-pau de God of War (mas apenas por alguns instantes). Fora alguns detalhes o game tem uma identidade própria no que se refere aos controles,. Mesmo comandando Hyakkimaru ou Dororo a jogabilidade se mostra bem tranquila e eficaz e ao contrário de muitos jogos desse gênero, a câmera aqui não chega a ser um problema.

Os gráficos não são excelentes mas também não chegam a ser ruins, podemos classificá-los como de mediano para bom. Tendo em vista que outros títulos lançados em 2004 tem um visual superior, as texturas são meio pobres mas esse pequeno revés não tira o brilho do jogo pois os personagens são muito bem feitos, e com movimentação bem fluida. Destaque vai para os inúmeros bosses,  um visual estranho mas tambem criativo e os cenários apesar de simples  e sem muitos detalhes são aceitáveis, como foi dito antes não é nada que prejudique ou dê deméritos ao título. Vale dizer também que embora seja um jogo inspirado na obra de Tezuka o jogo não tem o design característico de seu criador. O design dos personagens fica por conta de ninguém menos do que Hiroaki Samura que pra quem não sabe é o autor de Blade: A Lâmina do Imortal. E ainda meio que como "brinde", as seqüências animadas foram criadas por Mahiro Maeda, de Animatrix: The Second Renaissance. Como é possível perceber, um time de peso trabalhou nesse game.

Já a parte sonora talvez seja o elo mais fraco da corrente. Embora as dublagens estejam muito boas diga-se de passagem, efeitos sonoros um tanto quanto repetitivos e algumas músicas não cumprem muito bem o seu papel e deixam a desejar, fica aquela sensação de: "É... O ritmo é legalzinho."

Até a última gota de sangue!

 

Blood Will Tell é um bom e divertido jogo sem dúvida alguma. Além de oferecer um bom tempo de jogatina, onde se deve acabar com demônios, evoluir seu personagem e resolver pequenos puzzles o game ainda oferece uma série de extras para quem chega até o final. A parte bônus tem desde uma galeria com rascunhos, obras de arte conceitual feitas para o jogo, tudo de autoria de Hiroaki Samura. Temos também alguns mini-games, informações detalhadas de todos os personagens e criaturas vistos durante o game e uma galeria com as cut-scenes da aventura.

 

Blood Will Tell: Tezuka Osamu's Dororo é diversão garantida. Com enredo bastante original e mirabolante, cheio de reviravoltas, afinal se levarmos em conta quem foi seu criador já basta como argumento para ao menos experimentá-lo. Embora a SEGA tenha pisado levemente na bola algumas vezes, ela acertou em cheio na adaptação. Não sou muito fã de jogos baseados em mangá, mas para esse eu tive que dar o braço a torcer. Diversão fácil, agradável e sem muito compromisso (não, não me refiro a prostitutas).

 

 

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