Vampire The Masquerade: Bloodlines   Activision  - PC  - Análise por duke magus

Mostre os Caninos...

 

Com exceção da bisavó de um velho conhecido meu (que jura ter sido roubada por um), todos adoram vampiros. Os “filhos da noite” hoje em dia são criaturas belas e sedutoras, cuja vida noturna e a eterna sede já os diferenciam bastante do Vlad “impalador” Tepes, que nunca imaginou que seus modos bizarros lá na Transilvânia fossem influenciar TANTA coisa.

Como nós, pobres primatas capitalistas entre outras coisas, amamos viver lendas e ter grana, surgiu um sem-fim de produtos baseados em vampiros: filmes, livros, jarros, canecas, fantasias, as marcantes “dentaduras-postiças-de-plástico-vagabundo-(e nada higiênico)-para-fantasias-pobres-de-halloween-que-serão-reaproveitadas-em-todos-os-carnavais-e-festas-à-fantasia-dos-próximos-cinco-anos”, e por fim aquilo que nos interessa: Games e RPGs.

 

De todas as mudanças e variações que fizeram na lenda dos chupa-sangue, sem sombra de dúvida a versão do RPG de mesa “Vampiro: a Máscara” foi a mais consistente. Todos portadores de uma maldição iniciada em Caim (aquele da Bíblia! O primeiro assassino! Responsável pela morte do puxa-saco original, que por uma infeliz coincidência era seu irmão, mas isso não vem ao caso). Esses seres das Trevas possuem uma série de poderes incríveis e dominam a sociedade humana desde a aurora dos tempos. Um mundo sombrio e injusto que cativou dezenas de milhares de RPGistas pelo mundo afora... Mas eles queriam mais que imaginar, queriam VER e USAR seus personagens. E nessa surgiram dois games baseados nesse mundo: Vampire The Masquerade: Redemtion e Vampire The Masquerade: Bloodlines. Já que eu citei a Bíblia faz pouco tempo e num dos versículos diz “os últimos serão os primeiros”, eu vou fazer o review do último game... Espero que gostem

 

Um Mundo de Trevas

 

V.t.M.: Bloodlines (e me perdoem pela abreviação, mas é ainda mais sacal digitar do que ler um nome tão comprido) é um jogo de RPG/Ação/”algo-parecido-com-shooter” lançado para PC no final de 2004 pela Activision e Troika Games. Nele, você controla um Amaldiçoado (sinônimo de vampiro) recém transformado, sem mestre e salvo da Morte Final por uma mera formalidade política. Agora você tem que provar aos outros vampiros que você não passa de um desperdício de não-vida e conquistar o seu lugar entre os Cainitas (mais um nome para vampiros).

 

Os grandes destaques do game são a ambientação e a imersão. O pessoal da Troika realmente se superou na hora de trazer o World of Darkness (mundo do RPG de Vampiro) para os PCs. Várias coisas que são pontos-chave do mundo nos RPGs de mesa, como a Gehenna, a situação delicada dos Anarquistas, a rígida hierarquia da Camarilla, as sutilezas de cada clã vampírico, e até mesmo alguns detalhes de outros jogos que também fazem parte do World of Darkness, como lobisomens e fantasmas... Tudo foi adaptado para o game de um modo que superou as expectativas de todo mundo.

 

Os mais atenciosos notaram que eu escrevi ADAPTADO, e não TRAZIDO. Porque eu escrevi isso, ou melhor: porque eles fizeram isso? Simplesmente porque tem coisas que só funcionam bem com um narrador, dados, fichas, livros, lápis, muita imaginação e alguns salgadinhos. Com jogos eletrônicos só podemos improvisar os salgadinhos, e ainda tem o risco de engordurar o mouse!

 

Em minha opinião, eles conseguiram equilibrar bem a parte “game” e a parte “RPG”, o que devia ser um bom sinal, se não fosse porque para 90% tanto dos gamers quanto dos RPGistas NÃO EXISTE MEIO TERMO EM NADA! Daí é comum ouvir gamers adeptos dizendo “que sistema bem bizarro de status hein?” e quem joga o RPG de mesa dar uma de Dado Dolabela e dizer que esse game “Traiu o movimento Storyteller”. Bem, eu recomendo que aqueles que, como eu, transitam entre esses dois mundos, tentem dar uma olhada mais imparcial antes de tirar suas próprias conclusões.

 

Um jogo, duas visões, três gêneros e muita história para contar...

 

O modo de controle do game é meio incomum. Os controles são os mesmos de um FPS normal, mas você pode a qualquer momento trocar a câmera para 3ª pessoa para ter uma visão mais ampla do mundo (e de você mesmo). Na verdade existem momentos em que você DEVE usar a câmera em terceira pessoa, como nos combates corpo-a-corpo. Se alguém já jogou Gunz Online (vulgo “The Duel”), sabe que a movimentação ágil e ampla de um jogo FPS não causa um efeito visual muito bom, e certos gestos incomuns, como ficar correndo de costas, são frequentes. Apesar disso, a movimentação do personagem flui melhor do que o que costumávamos ver na época.

 

O lado bom de se jogar um RPG baseado nos jogos “Papel-e-Caneta” é capacidade de customizar as habilidades do personagem para ficar do jeitinho que você gosta, ou quer, ou é, ou será, ou queria ser, etc... Apesar da customização visual ser nula (cada clã de vampiro possui dois corpos, um masculino e um feminino) o jogo compensa isso com um grande leque de atributos e habilidades para mexer.

 

Para quem não joga RPG de Mesa e\ou não é acostumado com Storytellers da vida, isso vai parecer uma surpresa, mas boa parte dos atributos estão ligados a coisas que não estamos acostumados a colocar quando construímos nosso personagem.  Não é todo dia que você escolhe se o seu personagem vai ser habilidoso em seduzir, enganar ou intimidar. Será que vale à pena ter um personagem mais “ligado” que consegue inspecionar ambientes e encontrar itens que ninguém vê ou pular pro lado prático da coisa, hackeando computadores e arrombando trancas. Até atributos que medem sua habilidade de negociar bem nas lojas ou o quanto você é bom em aprender coisas com livros existem. Isso dá um tempero especial ao game, pois você não vai fazer um herói lendário, e sim uma pessoa que era normal até pouco tempo atrás, com coisas bem mais “humanamente prováveis” para ser proficiente.

 

Com tudo isso, é óbvio que o enfoque principal não é pancadaria, e sim a interpretação. Parte que se sobressai. O jogo mostra o World of Darknes de um modo natural e fluente, fazendo com que a cada objetivo concluído você saiba mais e mais o quanto esse mundo é cheio de surpresas e perigos... Os diálogos são envolventes e o enredo te prende tanto pelo seu desenrolar quanto pela liberdade de escolha. Até a parte obscura das aventuras tem a chance de acontecer, e não me refiro aos atos maléficos, e sim a chance de falha. Sim! Mesmo fracassando em uma missão, você continua o game, arcando com os custos de seu erro.

 

Quanto a parte obscura “padrão”... Você não é o paladino da justiça, é um morto que anda, um parasita dos humanos tentando levar a sua não-vida pela eternidade em diante, então conceitos de certo e errado dependem mais da sua vontade (e humanidade) do que do código de moral e cívica que todo o deputado deveria ler antes de se candidatar ao cargo.

 

Vale ressaltar que você não controla uma pessoa, e sim uma besta imortal com poderes que um humano jamais sonharia em ter. Aqui entram as “Disciplinas Vampíricas”. Cada clã possui três disciplinas únicas para usar, que vão desde controle mental e invisibilidade até chamar animais para te ajudar no combate ou metamorfosear seu corpo inteiro em um monstro assassino. Tudo isso passando por “magia vampírica”, capacidade causar insanidade temporária nos alvos, super força, velocidade e reflexos melhores que os de Neo, defesa extrema etc.

 

Você já deve ter descoberto isso quando eu escrevi a palavra “vampírica”, mas essas disciplinas consomem sangue... O sangue que mantém você vivo, mas cuidado na hora de “matar a sede”, pois, afinal, você é um predador tentando viver entre as presas... Se você a dar uma de maluco, matando inocentes e drenando suas vítimas até a morte, vai começar a se tornar cada vez menos humano, e cada passo rumo a Besta torna mais difícil controlar os impulsos assassinos do seu personagem. Ele pode até entrar em Frenesi, atacando tudo que estiver ao redor sem qualquer controle... Se isso te acontecer, você só pode ficar olhando seu personagem matar tudo que encontrar.

Eu vejo Gente Morta!

 

Tecnicamente o jogo pode ser classificado como uma tentativa ousada que falhou na tarefa de se tornar uma lenda, mas conseguiu se tornar um ótimo jogo. Os gráficos usam a mesma Engine gráfica do Half-Life 2 (uau!), o que não faz sentido nenhum para mim, mas segundo quem entende era simplesmente uma das engines mais poderosas para se trabalhar em cima na hora de produzir um game bonito. Verdade seja dita, o game conta com um visual excelente, bons efeitos de luz, sombras bem posicionadas, texturas perfeitas e, o mais importante, um mundo bem-feito. Nada de “casas de bonecas poligonais”, o mundo real não é limpinho nem uniforme, e isso foi bem representado. Latas de lixo, pôsteres de mulheres nuas... Manchas de mofo, até objetos fora do lugar feitos de forma realista, o que dá uma imersão incrível! Você pode até sentir a sensação de “ambiente doente” quando entra num hospital de segunda ou hotel barato.

O oposto também vale: hotéis luxuosos, mansões, mobília do século XVIII, quadros famosos e caríssimos... Seja uma grande obra de arte ou uma grande lata de lixo, o mundo é grande, e os caras da Troika fizeram questão de mostrar isso.

 

A parte sonora conta com um coringa: TODOS os NPCs são dublados. E muito bem dublados! Já fazia um tempo que eu não escutava vozes que combinassem tão bem com o personagem e a emoção vivida no momento... Desde o tom enojado e politicamente correto do Príncipe LaCroix até o jeitão descontraído e cheio de gírias do velho Jack, 90% dos personagens possuem uma atuação por parte dos dubladores digna de um prêmio. Como se isso já não fosse interessante, o lip-sync dos personagens é impecável e mesmo gestos de sobressalto, como acessos de raiva ou olhares safados fazem do ato de ouvir o que os outros tem a dizer uma coisa divertidíssima, (além de ajudar aqueles que estão aprendendo pronúncia inglesa).

 

O que é isso preso no seu dente?

 

Eu ainda sonho em ver um desses games que tentam ser várias coisas ao mesmo tempo ficarem bons o bastante para eu não precisar fazer um tópico só para citar defeitos... Bem, quem sabe na próxima?

 

O game foi ambicioso... Um jogo que une lutas, tiroteios, investigação e uma experiência RPG imersiva e profunda... Tem coisa aí que não se combina muito bem, e amarrar tudo isso não é fácil.

 

Como conseqüência, a parte de combates ficou bem abaixo do esperado. Atirar com uma arma de fogo, por exemplo, depende exclusivamente da habilidade do personagem, então um tiro na cabeça e no joelho causam o mesmo estrago. Além disso, usar armas sem ter uma habilidade alta é extremamente frustrante! Você manuseia armas do mesmo modo que uma pessoa normal: demora pra mirar, atirar, recarregar, e quando parece que está pegando o jeito o inimigo já está colado em você, te forçando a pegar um bastão de baseball e fazer um “home run” com a cabeça dele. Um dos casos em que o realismo caminha na contramão da diversão. Mesmo lutar com armas corpo-a-corpo é meio irritante, pois os movimentos do personagem são demorados e imprecisos... Uma dica minha: se você quer usar os poderes das trevas para chutar traseiros, jogue DarkWatch ou Devil May Cry, pois no bloodlines o combate definitivamente NÃO é o foco.

 

Outro ponto que incomoda um pouco são as quests. Você sempre possui uma quest principal para seguir, e é ela que faz você prosseguir na história, mas você sempre tem mais o que fazer... Dá para dizer sem medo de errar que para cada objetivo principal existem outros SEIS secundários. Quem não está acostumado pode acabar não saber por onde começar e deixar muita coisa interessante passar batido.

 

Bloodlines é um grande jogo, e um jogo grande. Seus mapas são grandiosos e detalhados, com um número razoável de NPCs e objetos espalhados por aí. Jogos assim sofrem de um mal crônico: Loadings irritantes. Nesse game, os mapas são carregados por áreas, e muitas vezes essas áreas são GRANDES. Áreas grandes precisam de MUITA memória para serem manejadas, ou o PC fica uma década descarregando o mapa anteiror e outra carregando o atual. Com um Pentium 4 3.0 GHz e 512 de RAM, eu chegava a certos absurdos, como ficar 2 minutos esperando certos mapas abrirem, e ainda encarava algumas “travadas” para o jogo carregar um evento ou inimigo grande. Curiosamente, com o mesmo processador e 2 Gigas de Ram os mesmos mapas não levam nem 25 segundos para abrir e as “travadas” sumiram...

 

Por fim, Vampire The Masquerade: Bloodlines é um jogo que teve seu desenvolvimento meio conturbado... Por sinal, teve que ser terminado as pressas para o projeto não ir pelo ralo. A prova disso é um sem-fim de quests, NPCs, armas e outros adicionais que não foram adicionados no game,, mas continuam dentro dos diretórios e arquivos internos do mesmo. Acha isso um absurdo? Pois ficaria impressionado com a quantidade de games que sofrem do mesmo mal (só para citar exemplos: Icewind dale, Fallout 1 e 2, Baldur’s Gate 1 e 2, Neverwinter Nights e outros clássicos deviam ser BEM maiores, mas por motivos desconhecidos ficaram como nós os conhecemos). Por sorte um grupo de jogadores talentosos dedica o seu tempo em libertar esse conteúdo oculto e revelar o que o jogo realmente tem para oferecer. Como já faz TRÊS ANOS que esses caras estão restaurando esse game, pode-se concluir que não é pouca coisa...

 

Um beijo e um abraço (ao estilo cainita)

 

V.T.M.: Bloodlines é indispensável para quem conhece o RPG, e uma boa pedida para qualquer jogador que queira uma aventura envolvente e cheia de detalhes. Com medo do escuro? Você só vai fazer idéia do que realmente acontece depois que o sol se põe...

 

 

Site relacionado: http://www.planetvampire.com/

 

 

 

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