The Suffering  - Surreal Software  - PS2/Xbox/PC  - Análise por duke magus

Ah, a brutalidade... As ditas “pessoas civilizada” falam mal, abominam, mas mesmo os mais “pacíficos” ligam a televisão de noite para ver um bom filme cheio de porradas e\ou tiroteio. Não, não é nada de que você deva se envergonhar, já que por mais racionais que sejamos, nós ainda somos animais, e o nosso lado mais “primitivo” ainda clama por uma boa dose de adrenalina, e já que a maioria de nós não pode sair por aí e ter o seu “dia de fera” (mesmo os que podem provavelmente tomariam uma surra memorável antes de dar o primeiro soco), nós apelamos para soluções mais práticas e viáveis, como livros, filmes e videogames.
Sabe, é interessante que quanto mais a humanidade fica “cabeça”, mais interessante se torna a violência psicológica: dilemas morais, decisões difíceis, imagens chocantes... mais que um complemento para o bom e velho “sangue e desmembramentos”, vem se tornando tão (ou mais) impactante que a brutalidade física...

Para aqueles que gostam do sangue jorrando Mortal Kombat ou God of War caem bem, para os que preferem confusão e pânico, cai bem um Fatal frame ou Eternal Darkness... Mas e os que querem provar dos dois mundos? Bem, o jogo que pretendo comentar tem o benefício de ficar bem no meio, quero dizer... se acabar com a mente e o estômago próximos do seu limite for benefício...

Damas e Cavalheiros, Apresento-lhes “The Suffering”


“Inferno? Não tive essa sorte...”

“The Suffering” é um game de ação/Survival Horror criado pela Surreal Software lançado em 2004 para PC, PS2 e Xbox. Nele você controla “Torque”, um cara durão condenado à morte pelo assassinato brutal da esposa e seus dois filhos, apesar dele simplesmente não ter memória do que realmente aconteceu. Você começa o game na Penitenciária Estadual de Abbot, na Ilha Carnate.

Pouco tempo depois de você entrar em sua cela ocorre um terremoto que arrebenta com as bases da prisão e da ilha em si (entenda isso em todos os sentidos que conseguir... nenhum vai estar errado). Para todos os efeitos, sua cela abre, apenas para que você veja um sem-fim de criaturas horrendas circulando pelo prédio e matando a todos...

Um fator interessante no game é o background... Quanto mais você descobre sobre a ilha, mais você tem a impressão que se o inferno tem endereço, é logo abaixo de Carnate. A quantidade de assassinatos massivos e brutais, bem como o histórico de violência da ilha faz um campo de concentração parecer colônia de férias. Até faz parecer que a metáfora que eu usei acima não é tão estúpida e realmente existe “ALGO” nessa ilha que libera o que há de pior em cada pessoa...

Moralidade versus Mortalidade

Um dos atrativos do game são os dilemas morais que ele proporciona: eventualmente você pode acabar encontrando sobreviventes, e se por um lado eles podem dar e tomar alguns golpes por você, por outro quase todos são seres no mínimo incômodos. Fraqueza, arrogância, covardia, ódio, bajulação, inveja... Tudo que a humanidade tem de podre, e como se não bastasse sempre tem duas vozes ecoando na sua cabeça, um dizendo “ajude-o” e a outra berrando “faça-o sofrer, MATE-O!”. Cabe ao jogador decidir qual voz seguir.
Como se a amnésia já não trouxesse dor de cabeça o bastante ao jogador, de tempos em tempos você tem alucinações confusas e bizarras. Como normalmente o jogador já está meio “na pilha” de aparecer alguma coisa desse ou daquele canto escuro, ter uma visão de um cara grande sendo executado na cadeira elétrica ou dar de cara com seu filho morto correndo por um corredor pode dar um BELO susto, e os caras da Surreal foram cretinos o bastante para fazer essas coisas aparecerem bem na hora que o jogador está com a guarda baixa...
Uma dica pros de nervos fracos: comprem uma cadeira forte, pois vão pular MUITO dela.

Banho de Sangue

A jogabilidade do game é satisfatória, podendo ser jogado tanto em terceira pessoa para os que gostam de uma visão mais ampla da situação, como fazer da jornada de Torque um FPS e encarar tudo com os Olhos do Condenado.
Para um game de terror, é bem difícil de acreditar que movimentação ampla e ágil tenha caído bem... Você corre, pula, rola e (óbvio) atira como ninguém, além de contar com alguns “brinquedinhos” para animar a festa, como granadas, dinamites e lança-chamas. Se a escuridão incomodar, você pode jogar um “flare” ou ligar sua lanterna (e rezar para as baterias durarem mais que o escuro), e se ficar muito ferido pode tomar uma dose de “Xobium”... tudo ao alcance de um botão.
A parte gráfica... bem, isso é confuso. Os gráficos em si são ridículos para os padrões “PlayStation 2” de hoje em dia, e mesmo na época de lançamento tinha coisa BEM mais bonita. POR OUTRO LADO, a ambientação foi bem feita, o que suplanta esse defeito muito bem. Não me entenda mal, polígonos e texturas são bons, mas se você não colocar sombras, manchas, sangue e algumas pichações no lugar certo, vai ter uma “bela caixa de concreto”, e não uma prisão infestada de seres demoníacos.
Assim como nos cenários, os personagens também seguem essa linha: suplantam a falta de modelagem com boa movimentação e sons. Detalhe para o fato que se você matar um inimigo enquanto está muito perto vai ficar sujo com o sangue dele. Em situações extremas você literalmente “ensopado” com as vísceras das criaturas... Efeitinho simples, mas que faz uma falta danada em outros games (alguém falou God of War?).


Nada se cria, tudo se copia... MAS VÊ SE FINGE QUE É ORIGINAL!

Depois de vinte minutos de jogo uma coisa fica clara para quem quer que seja: não há nada de inovador no game. Torque é sólido como um tijolo, e quase tão carismático quanto, então vou deixar ele de fora da reclamação. É realmente MUITA coisa, passando por filmes, músicas, capas de discos, games, livros... qualquer um com um pingo de cultura ou uma televisão em casa vai adorar ver essa ou aquela fala e dizer “ei! Eu já vi isso antes!”... pelo menos no começo vai adorar, porque depois de um tempo o que parecia ser “homenagens” se mostra como total falta de criatividade.

A presença de ambientes labirínticos e escuros anda na contramão do combate, já que você pode perder preciosos segundos virando a câmera feito um doido procurando quem te atacou, já que o game não dá nenhuma ajuda ou “trava de mira”. Se no PC, com toda a agilidade do Mouse isso já é complicado, deve ser um inferno com um joypad de console... Pode ser estranho de dizer isso, mas a mobilidade limitada de Resident Evil fez uma falta aqui, pelo menos nele mirar era tarefa fácil

Por fim, uma pequena quantidade de bugs do tipo “atolamento no cenário” aparece muito raramente, mas não chega a perturbar a experiência de jogo.


Sentença!

The Suffering é um jogo bom para aqueles que gostam de sangue e medo, e já estão de saco cheio dos games “manjados”, como Resident Evil, Silent Hill e similares. Além disso, conta com a vantagem de ser um jogo meio “lado B”, do tipo que não exige muita pesquisa para ficar por dentro do que está ocorrendo. Apesar de passar longe da maestria de outras séries consagradas, merece ser jogado pelo menos umas duas vezes: uma para ser você mesmo e outra pra ver as conseqüências do que você não tinha feito antes.


OBSERVAÇÃO FINAL: “Xobium” é uma alusão a um remédio realmente existente usado para controlar distúrbios esquizofrênicas... NÃO TOME REMÉDIOS SEM PRESCRIÇÃO MÉDICA! O desequilíbrio físico e emocional que essas drogas causam podem facilmente fazer você acabar em uma cova...

 

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