| Omikron - Eidos/Quantic Dreams - PC - review por Duke Magus |
Você já jogou um game
“free-action” ultimamente? Sabe, aqueles games em que pouca coisa é obrigatória,
que tem um objetivo, mas se você quiser pode jogar tudo para o alto e sair para
passear? E mesmo em gênero eles não são completamente fixos. Você luta, corre de
carro, atira, evolui seu personagem. Games como esses últimos GTAs, Driver 3, o
velho e lendário Shemune, games desse gênero. Pois é, esse tipo de filosofia na
hora de criar jogos vem de longe... Desde os tempos dos cavernosos fallout e
Baldur’s Gate; “e esse tal de omikron onde entra nessa história?” você deve
estar se perguntando. Pois bem, os dois jogos citados anteriormente deram passos
importantes rumo à liberdade, mas estavam sempre presos ao seu próprio ritmo de
jogo (RPG). Ok, isso não é defeito algum. Mas mesmo assim Omikron leva uma
vantagem sobre eles: Foi o primeiro free-action totalmente 3D do mundo! Portanto
sempre que for jogar um GTA ou coisa parecida, lembre de se ajoelhar e dedicar
uma oração aos criadores do Omikron.
Omikron: The Nomad Soul nasceu em
99 e foi criação da equipe da Eidos Interactive e da Quantic Dream (a mesma
equipe que criou nos últimos tempos o game Indigo Prophecy), que quis
revolucionar desde o conceito de criação do game até os seus mínimos detalhes,
ao começar pelo seu enredo: Assim que você coloca New Game você é parado por um
personagem que diz que vem de uma outra dimensão e pede ajuda. Até aí tudo bem,
mas logo depois ele pede para você colocar a sua alma no corpo dele! A partir
daí você é literalmente jogado num mundo completamente novo e futurista, e em
menos de 15 segundos já é atacado por um demônio! Começo confuso? Acostume-se.
Boa parte do game segue esse ritmo confuso de desenrolar da história. Traições,
reviravoltas, mentiras, trapaças, quase tudo nesse game se altera
constantemente.
Não é apenas o enredo que chama atenção no jogo; Lembra que logo acima você leu
que o personagem vem de uma outra dimensão e você entra nela?
Pois bem, os criadores do game se esforçaram ao máximo para o jogador realmente pensar que está em um mundo novo. Arquitetura, pensamento da população, tecnologia tudo foi feito como se você estivesse em uma outra dimensão. Até mesmo coisas que você normalmente não pensaria em observar como poesia, música, legislação, religião, história, TUDO! Eu posso estar errado nas contas, mas há de 50 a 100 livros no jogo apenas para tentar descrever todos os aspectos dessa megalópole que é Omikron.
E digo mais, em Omikron você
pode achar de tudo, TUDO, incluindo muitas coisas que um game normal talvez
não tivesse. Que tal um distrito dedicado aos bares barra-pesada e bordéis
com dançarinas, sex-shops e tudo mais. Ou quem sabe uma força de resistência
que conta com terroristas e feiticeiros lado à lado.
Isso tudo escrito acima diz muito, mas não diz tudo. Se seu inglês não
estiver enferrujado, você vai ler “alma nômade” (nomad soul) no subtítulo do
game.
Esse nome não é apenas para
enfeite. Você pode trocar de corpo durante o game! E não é apenas uma mudança
estética. Seus status e até mesmo sua moradia podem vir junto com essa pele
nova. Algumas missões do jogo têm ligação direta com essa habilidade. Que tal
trocar de corpo com um soldado para entrar escondido numa base secreta?
Interessante né?
Uma das coisas que o time de criação do game mais ressaltou enquanto criava o
game era a incrivelmente maravilhosa e poderosa engine* que o jogo teria, e
nesse ponto os desenvolvedores não exageraram em nada.
* Para quem não sabe, engine é o “motor” do jogo. Um bom game deve ter uma boa
engine, que suporte todas as possibilidades definidas para ele. EXEMPLO: a
Engine Half-life não é graficamente poderosa, mas tem grande potencial para
criação, com ela já foram criados jogos de tiro, luta, corrida e uma infinidade
de MODs como o Counter-Strike. Terminada essa aula de tecnologia de games, vamos
voltar ao review:
Basicamente o jogo é um RPG: você conversa com os outros personagens, investiga,
resolve enigmas, etc. Mas você tem ampla liberdade de movimentação, com direito
à saltos, corrida, natações, voltas de “slider” (um carro sem rodas... eu disse
que o jogo era futurista)... Então é um RPG\Ação. Mas também há várias lutas no
game, com direito a socos, chutes, combos, especiais, até virar um mestre no
“taar combat” (o estilo de luta do game também tem nome próprio; eles REALMENTE
se esforçaram para tornar o mundo do jogo autêntico!) Então podemos dizer que é
um RPG\Ação\Luta. Mas também há partes de tiroteio no jogo, com muitos raios e
tiros para todos os lados. Então vamos arriscar falar que é um
RPG\Ação\Luta\Tiro, ficou difícil de entender, vamos analisar cada um desses
gêneros e como eles foram adicionados ao game.
RPG: A parte RPG está regular e foi razoavelmente bem feita. Os diálogos estão
bem inteligentes em sua maioria, às vezes inteligentes demais, ou mesmo muito
presos ao mundo do game, o que te obriga a ler um ou dois livros no jogo para
entender o que te foi dito. Os enigmas estão num bom nível para a época. Um
detalhe que chama a atenção é a absolutamente revolucionária tecnologia de
lip-sync* do game, que foi algo nunca visto antes naquele tempo (e melhor do que
muitos jogos dos dias atuais), os personagens movem o rosto com suavidade
enquanto falam e com perfeito sincronismo entre boca e fala... Esse efeito em
especial abriu caminho para muitos dos elementos dos jogos atuais.
Lip-Sync: ou sincronização labial é simplesmente a tecnologia que permite que a boca do personagem se mova conforme ele fala. Diferente dos games antigos em que a voz saia deus lá sabe de onde e o personagem ficava parado ou apenas mexendo os braços. Terminada mais uma lição de tecnologia de games, vamos prosseguir.
AÇÃO: A parte de Ação deixou um pouco a desejar... É interessante correr pelas
cidades (que são verdadeiros labirintos, acredite!), mas depois de um tempo
cansa! Os pulos são praticamente inúteis e a parte de natação é bem restrita.
Bem, no resumo pode-se dizer que “na parte de ação faltou um pouco de ação”.
TIRO: Cumpre o seu papel, não há descrição melhor para esse departamento. A parte de tiro é bastante interessante e frenética, mas exige pouco pensamento na hora de matar os seus inimigos (o que não faz do jogo fácil... a falta de qualidade no pensamento dos oponentes foi generosamente compensada em quantidade).
O que complica são as fases
labirínticas, que geralmente exigem pelo menos uns 15 ou 20 minutos apenas para
explorar o local antes de cumprir qualquer objetivo.
LUTA: Quase toda a revista de games que fez uma coluna sobre o Omikron, seja ela
preview ou review sempre escrevia a mesma frase “os desenvolvedores prometerem
lutas no nível de Tekken”. Efetivamente as lutas são o ponto mais alto do game.
Dezenas de golpes, combos, e especiais com um bom ritmo e muita diversão. Um
detalhe também curioso é que o seu personagem “sobe de nível” enquanto luta, e
quanto maior o nível, mais golpes ele pode fazer (novidade absoluta em qualquer
sistema de luta “luta mesmo” da época). Eu não quero ser pretensioso, mas um ou
2 jogos de luta posteriores copiaram alguma do Omikron e ninguém notou...
Tecnicamente falando o game é bom... Para a época. O problema é que já fazem
MAIS DE SEIS ANOS que o game foi lançado! Mesmo assim vamos analisar os detalhes
técnicos do game.
GRÁFICOS: Os gráficos eram acima da média da época... Poucos games tentaram
colocar tantas pessoas, veículos e construções na mesma tela, além de muitos
detalhes como, por exemplo, os cartazes na rua (quanta-cola rulez!). Os
personagens possuem uma quantidade razoável de polígonos* e boas texturas*, mas
muitas vezes acabam ficando com o rosto ou as pernas tortas ou atrofiadas. De
qualquer modo era um excelente resultado para um tempo em que placas de vídeo de
16MB eram artigo de luxo e valiam mais de R$: 1.000
*Polígonos e texturas são basicamente o que formam um personagem em 3D.
Resumidamente qualquer objeto 3D é formado por uma série de pontos interligados
chamados polígonos (um cubo têm 6 polígonos por exemplo). Texturas são figuras
que revestem os polígonos e assim você vê figuras completas e não “bonecos de
arame” andando na tela. Adiante
SOM: O som é outro ponto alto do game. As músicas estão muito boas e se adequam
perfeitamente à situação. Como se isso não bastasse, boa parte da trilha sonora
é assinada por David Bowie! O Camaleão do mundo Pop em pessoa! Err... Você não
conhece Dabid Bowie? Não fique envergonhado, ele não é um cantor dos mais novos.
Vamos dizer que ele era um grande cantor de rock\pop\eletrônico dos anos 80 e
até hoje é uma lenda da música. E ele não faz só algumas canções; ele realmente
aparece com a sua banda como personagens do game fazendo shows ao vivo tudo
mais!
Diferente das músicas, os efeitos sonoros decepcionam um pouco... São muito
repetitivos e não são dos mais agradáveis ao ouvido (especialmente os sons dos
personagens. Você vai acabar enjoando rapidinho de ouvir aqueles “uup!” que eles
dizem quando pulam...).
Nem tudo são flores no game. Como toda tentativa de algo novo, ele tem seus
problemas, que não são nem poucos nem pequenos.
A primeira coisa que você vai notar é que esse mundo é grande, enorme, imenso, e
cheio de coisas para ver e fazer. Isso confunde até mesmo jogadores experientes
e assusta os novatos. Muita gente se perde no mapa ou nos objetivos facilmente.
Falando em objetivos, eu não sei dizer se eles foram muito mal desenvolvidos ou
bem desenvolvidos demais. Eles são inteligentes e complexos, mas exigem um
raciocínio que foge de muitos jogadores, e vão fazer você andar em círculos por
muito tempo antes de descobrir o que fazer. Vou dar um exemplo (que também é um
tremendo spoiler! Se não quiser descobrir assim, pule essa parte):
Um dos objetivos do game é abrir a sala dos arquivos da polícia, daí você tem
dois meios: ou rouba a chave da chefa de polícia ou força a entrada com um robô
gigante.
Se quiser roubar a chefa, você vai ter que droga-la com uma pílula de dormir que
você pega usando um item que você acha no começo do game e vai levar um bom
tempo até descobrir que deve colocar as pílulas no café que ela posteriormente
te pede.
No caso do robô você tem que virar amigo do mecânico dele, sabotar a central de
robôs, entrar em uma cena de tiro e sobreviver a tudo isso...
Antes de fazer os objetivos você fica pensando por horas, às vezes dias à fio
sem ter uma luz (à menos que use um detonado, mas aí não tem a mesma graça)
depois que você os completa fica com aquela estúpida sensação de “mas era só
isso?” quando no fim das contas você nota que isso dificilmente passaria à sua
cabeça!
Para tentar amenizar a situação o game possui um sistema de dicas que podem ser
“compradas” nos pontos de salvamento. O problema é que para comprar essas dicas
se gastam os mesmos itens que se usa para salvar o game (os “magic rings”, que
estão espalhados por todo o game) e se você gastar demais vai acabar com
problemas na hora de salvar o game (coisas como faltar rings para salvar com
você avançando bastante no game, daí você morre e tem que fazer TUDO denovo).
Como se não bastasse as supostas
dicas são passadas em forma de enigmas, e nem sempre nos dão aquela mão. É uma
ajuda bem “presente de grego” mesmo...
Outro defeito crasso: Bugs!São poucos e pouco perigosos, mas incomodam, e muito!
Vou dar apenas um exemplo: seu personagem cansa depois de correr por algum
tempo, mas se você pular enquanto corre seu fôlego se restaura. Se for pulando
nas horas certas dá para correr para sempre e nunca parar para descansar! Além
daqueles clássicos defeitos como atravessar paredes, se trancar no mapa, coisas
do gênero.
Se você se interessou pelo jogo, eu já posso lhe adiantando: não é apenas um
grande jogo, é um jogo grande. 3CDs para ser mais correto e foi lançado para PC
e dreamcast. (Uma versão do game iria sair para PSOne e outra para ps2, mas
ambas foram canceladas)
Omikron é um marco, não tenha dúvida, porém não é uma lenda. Ele incluiu muita
coisa que nos dias de hoje são populares, mas infelizmente não caiu nas graças
do povo. Digo mais: se tornou uma verdadeira raridade encontrar uma cópia do
game. Se você quiser jogar algo diferente ou fazer uma volta ao passado, já tem
uma recomendação, um jogo além do seu tempo, e esse é o seu maior ponto fraco.
Se ele fosse criado nos dias de hoje com certeza se tornaria o jogo perfeito.
(atualmente está sendo feita uma seqüência do game para PC e PS3... é esperar e
torcer).


