O Ano em que meus pais saíram de férias  - direçãoCao Hamburger  - Brasil/2006  - crítica por evilgambit

Filme brasileiro é bom quando dois fatores afloram:

1- Não parecer um produto da rede Globo.

2- Quando deixa de expor as mazelas do nosso país do terceiro mundo, como se fosse feito pra ganhar prêmios lá fora, apenas!

O Ano em que meus pais saíram de férias não parece, nem de longe, um enlatado para ser picotado entre comerciais na rede carioca, porque existe nele  sensibilidade e a notoriedade que um bom filme precisa para te fazer ir no cinema ao invés de esquentar a bunda no sofá aí na sua casa. E apesar de tratar de um tema um tanto sórdido, e batido, como a ditatura militar, o faz da sua brilhante maneira.

O filme se passa em 1970, ano de copa do mundo, o ópio do povão. Não é diferente para o protagonista Mauro de 12 anos de idade, fã ardoroso de futiba discute esperançoso com seu pai as chances da nossa seleção canarinho na próxima copa. O pai do garoto e sua mãe no entanto, precisam sumir por uns tempos.

Comunistas. Sim, inimigos mortais dos prestadores de serviço dos EUA/Brazil Enterprises, ou, Governo Brasileiro.

O casal foge as pressas, temendo o pior (isso todo mundo sabe, puta tema batido no cinema brasileiro, embora sempre assuma que seja extremamente relevante), viajam de BH até São Paulo, no bairro do Bom Retiro e ali deixam o garoto aos cuidados do avô paterno. O problema é que o velho morre e o garoto acaba sendo acolhido pela mais improváveis das criaturas: Um velho judeu.

O relacionamento, obviamente é difícil no inicio. Aos poucos o garoto aprende a se relacionar e vice versa. O famoso bairro paulista, reduto de judeus, italianos e toda uma gama mundial ali acolhida pela cidade que nunca dorme tupiniquim serve de cenário para uma excelente história sobre superação e solidariedade.

Existem momentos realmente brilhantes no filme, como o pontapé inicial para a descoberta da sexualidade, pequenos e deliciosos choques culturais, e uma sensibilidade incrível do diretor para tratar de um tema tão complicado e politizado como a repressão da ditadura mas aos olhos de um moleque de 12 anos, além é claro de expor o amor que o brasileiro tem pelo futebol. Tudo fica mais fácil quando se tem uma bola para chutar, como bem descrevem essas imagens.

Eu não tive, infelizmente, a oportunidade de curtir esse filme no cinema. Foi em DVD mesmo e sob ameaça de um amigo. Não tenho mais preconceito com filmes nacionais já a algum tempo e fiquei feliz ao constatar que a qualidade do DVD é excelente, boa imagem e som que só salienta ainda mais a bela fotografia e a trilha sonora, cativante e bem encaixada. Outro fato que ajuda a espantar meu preconceito é que os atores globais tem papéis secundários, o garoto protagonista é um achado dos produtores, a comunidade judia é... judia e toda diversidade cultural do Bom Retiro é fielmente retratada, é coisa brasileira, não é perfeita mas nunca deixa de ser bela.

A grande poesia e força do cinema é essa.

 

"Abraço pelo menos é de graça, nah?"

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