| METALLICA: SOME KIND OF MONSTER - review por Bernardo Krivochein |
Meu relacionamento com o Metallica (que diabos, com o metal em geral) foi sempre de momento: com o advento da MTV nos anos 90 (você acredita que era possível assistir a CLIPES na MTV daquela época?!? Era incrível), cronometrada com a chegada da minha pré-adolescência, não só eu como todos da minha idade fomos apresentados a um mundo musical que desconhecíamos. Convenhamos que rádio no Rio de Janeiro sempre foi regida por jabá ou pelos DJs com o pior gosto musical possível e ser seduzido por aquelas bandas era algo fácil. O primeiro vinil comprado com meu próprio dinheiro (é, vinil)? "The real thing" do Faith No More. O "Black Album" do Metallica foi comprado um pouco depois (disco era caro pra caralho) e só depois de mais velho que descobri que tal álbum foi a maior evidência de como a banda havia se vendido para o esquemão (bom mêrmo é o "Kill'em all", me disseram).
Eu ainda sei cantar "Sad but true" de cor, fazer o quê?
Mas eu nunca fui um headbanger no colégio, porque também era época do brit-pop,
do eletrônico (a trilha de "Mundo Proibido" foi como uma bíblia) que eu achava
mais palatável (mas os discos, fui descobrir, tão inacessíveis quanto os de
metal) e porque meu cabelo era muito ruim, por causa da puberdade e tal. Vai
entender a vida, hoje eu estou com cabelão, saio para ouvir rock e encher a cara
em dia de semana. Naturalmente, uma adolescência tardia, mas que me permitiu
escutar finalmente o "Kill'em all". É bom mêrmo. Uma pena a banda ter agüado
tanto nesse "St. Anger" (o Sepultura não tinha feito cover dela?). Mais pena
ainda que "Some kind of monster", um semi-"Let it be" estrelado pelo Metallica,
tenha sido realizado justamente nesta época.
O documentário de Joe Berlinger (do ótimo documentário "Paradise Lost" e do
o-problema-é-ter-esse-título "A Bruxa de Blair 2") e Bruce Sinofsky segue a vida
dos três integrantes restantes da banda após a saída do (ótimo) baixista Jason
Newsted. Com os laços absolutamente em frangalhos (os três estão há 20 anos
juntos), os integrantes mais o produtor Bob Rock isolam-se num antigo centro
militar em São Francisco para tentar gravar um novo álbum, as rusgas finalmente
vem à tona. O produtor resolve contratar os serviços de um renomado psiquiatra (US$40.000,00
por mês!) que, a princípio, parece estar lá para ajudar, mas acaba tentando
convencer a banda da dependência deles do sujeito.
"Metallica: Some kind of monster", anteriormente idealizado para ser uma
minissérie da VH1, é um ótimo documentário exatamente pelo incômodo e humor
amargo que o fizeram ser rejeitado para a TV. O vocalista, James Hetfield,
perdeu a mãe com 16 anos de idade e seu medo de abandono o fez se afogar na fama
e no álcool do sucesso repentino da banda, finalmente tem uma família e precisa
acabar com o estilo de vida rock n' roll enquanto Lars Ulrich, o homem mais
odiado pelo público, estressa a banda com suas recentemente descobertas
pretensões artísticas e com o famoso processo contra o Napster. No meio do
tiroteio, o guitarrista Kirk Hammett faz o gênero "vamos fazer as pazes?", mas
torna-se só um coadjuvante de toda a história.
O documentário torna-se especialmente engraçado depois da marca de uma hora,
quando Hetfield volta da reabilitação e recomendações médicas fazem com que o
vocalista se torne um irritante guru da saúde. A contraposição de sua nova vida
zen com a gravação de um álbum de heavy metal resultam numa divertida explosão
de Ulrich. Pimenta nos olhos dos outros, eu sei. Eu não sei se era intenção dos
diretores em serem irônicos, mas as cenas de arquivo de antigos shows da banda
são exibidas paralelamente às imagens recentes, em que os integrantes, ao invés
de cair na porrada e/ou discutir (como uma boa banda de metal), expressam seus
sentimentos uns para os outros! Cenas com o pai de Ulrich (que parece ter sido
abandonado numa caverna pelo filho) ou a do psiquiatra fingindo gostar das
músicas do Metallica também são dignas de nota. "Some kind of monster" ainda
guarda um divertido embate final entre a banda e o psiquiatra, em que a banda
quase consegue reafirmar seu status.
O melhor, no entanto, é como o filme tira os integrantes da banda de seu
pedestal. Eles acabam retratados como adultos ainda imaturos, fazendo bobagens
por aí, tentando acertar com suas pretensões e suas novas responsabilidades (as
cenas de Hetfield no recital de balé da filha são ótimas), ainda incompetentes
nesse campo, lutando com seus demônios internos e tentando reaprender a
conviverem juntos. O ex-membro Dave Mustaine surge para pagar um dos maiores
micos do ano (você foi expulso há mais de 20 anos... já deu pra esquecer, não
é?!?), enquanto Jason Newsted, expulso da banda pelas limitações criativas que
eram impostas por Hetfield, surge só para reatestar o quão foda ele é (num
momento tenso, Ulrich e Hammett assistem a um show de Newsted; ao final, Ulrich
exclama: "Jason é o futuro, Metallica é o passado."). A amizade de longa data
entre Ulrich e Hetfield é relembrada pelo primeiro, resultando num discurso ao
mesmo tempo emocionado e carregado de rancor.
É de surpreender que o extremamente longo documentário não consiga explorar essa
dinâmica entre os indivíduos ainda mais. As vidas pessoais dos integrantes pouco
aparecem, o processo de gravação do disco é menos fascinante do que os
relacionamentos abalados, mas a prerrogativa é do primeiro, então somos forçados
a ficar presos dentro de uma salinha ouvindo música ruim por um bom tempo. Um
intrigante estudo sobre uma das maiores bandas de rock da história prejudicado
pela pior fase musical da mesma, "Metallica: Some kind of monster" humaniza a
banda, ridiculariza-a até, mas com a devida reverência, e dá vontade de voltar a
ouví-la. "...And justice for all", no entanto, e não "St. Anger".