| Herói - direção: Zhang Yimou - China 2002 - crítica por Bernardo Krivochein |
Zhang Yimou criou dramas de
indiscutível beleza e lirismo. "Lanternas Vermelhas", "Nenhum a menos", pode ir
dizendo os títulos - há um ou outro que peque em termos de impacto emocional,
mas Yimou não teve um filho feio até agora.
Mas com "Herói" e "O Clã das Adagas Voadoras", ele pariu supermodelos.
O gênero Wuxia Pian desenvolveu-se na China praticamente em paralelo com o
advento do cinema na região. Explicando de modo muito diluído em água morna, os
Wuxia Pian são como adaptações dos contos de trovadores chineses para as telas.
Aquela gente de olhinho fechado (excluindo-se a Renée Zellweger) voando pelos
bambuzais, para a incompreensão do Ocidente despido de magia, são mitos como
nossos superheróis, porém baseados em habilidades reais de gente que sabia o
bastante para ficar dichavada. Quem já viu chinês pegando copo no ar antes de
quebrar ou voando por cima de balcões e carros como se fosse a coisa mais
tranqüila do mundo, não duvida muito que eles não sejam capazes de parar seu
coração com três toques de polegar.
Yimou nutre o desejo de fazer Wuxia Pians já há algum tempo, quase desistiu depois que "O Tigre e o Dragão" (um bom filme, mas com uma filosofia chinesa de livro de rodoviária) foi lançado, pois temia ser chamado de aproveitador, mas o sucesso do filme só facilitou o financiamento de seu "Hero". O lançamento de "Hero" foi tão atrasado pela Miramax, dona dos direitos internacionais de distribuição, que todo mundo começou a importar o DVD chinês. A Miramax tentou entrar com uma ação para impedir a importação de DVDs (!!!), temendo que isso prejudicasse a bilheteria do filme. Quase 3 anos depois, "Hero" é lançado nos EUA e fica 2 semanas em primeiro lugar. O que isso mostra?
Que você não pode nem tem o
direito de bloquear a curiosidade das pessoas. Que o poder de uma obra
cinematográfica vai além das previsões dos executivos. Eu já tinha visto o
filme em DVD (você também, que eu sei) e a única coisa que me ocasionou foi
uma vontade irrepreensível de ver o filme numa tela grande e num cinema onde
as pessoas fiquem de boca calada. Ver o filme em DVD antes foi como uma
propaganda que só me atraiu a sala de exibição.
Fica difícil de falar de "Hero" porque é um filme perfeito. Mesmo. PER. FEI.
TO.
Mas antes um alerta: o público em geral acha que já que o filme é um épico, tem
cenas de lutas marciais e foi sucesso de bilheteria para os gringos, isso
significaria que "Hero" TEM QUE SER um filme de ação ininterrupta, humor, muita
adrenalina, efeitos especiais, explosão - porque é só esse tipo de coisa que
eles conhecem e que seu intelecto limitado permite gostar. Essa filosofia é de
gente imunda que conversa durante o filme, fala no celular e ainda leva fritura
para almoçar dentro do cinema. Isso é mentalidade de adolescente. "Hero" e "O
Clã das Adagas Voadoras" são filmes orientais, tenha isso em mente. Os silêncios
não são ensejos para que você comente sobre a história; os silêncios são para
ser escutados, fazem parte da história. Seu ritmo e seu tempo são para
espectadores que tem a poderosa capacidade de se deixar envolver com uma obra e
não aos que usam a exibição como desculpa para um bate-papo com a pessoa do
lado, porque elas são muito importantes, então Deus proíba que suas reflexões
(?) passem desapercebidas para os outros.
Se você é esse tipo de pessoa, nem se incomode. Filmes da Xuxa estão aí para
isso.
Passando ao largo do Cinemark e do UCI, "Herói" acompanha o xerife (Jet Li) de
uma pequena região ao encontro do poderoso Rei de Qin, convidado pelo mesmo para
que o xerife narre pessoalmente como um policialzinho chulé conseguiu dar cabo
nos três maiores conspiradores do seu governo: Espada Quebrada, Neve Flutuante e
Céu.
"Espada Quebrada, Neve Flutuante e Céu". Como é que um filme cujos personagens
tem esses nomes não poderia ser uma obra-prima?
O xerife conta sua história, mas detalhes a transformam, fazendo "Hero" ser um "Rashomon"
do pé-na-kara (a intenção do diretor). Antonioni falava da importância do efeito
psicológico das cores que usava em seus filmes, mas "Hero" é o exemplo
derradeiro dessa teoria. A cada vez que a história é recontada, toda a palheta
de cores - da fotografia ao cenário e vestuário - altera-se: é vermelho quando é
emocionalmente carregado, verde quando a ambição é a força motriz etc. Tudo isso
soma-se à filosofia chinesa da beleza. Você vai ver muito tecido esvoaçando em "Hero",
mas há coisa mais bonita do que uma cortina balançando ao vento?
Mas o elemento humano é o que está em foco, seja no frame como na história. Há
mometos em que grandes massas de pessoas movem-se coreografadas, remetendo às
fotografias de Andreas Gursky: a pessoa é tanto motivo quanto cenário. Para
isso, os atores tornam-se ferramentas fundamentais. Há uma placidez e perigo no
olhar de Jet Li, como o seguro xerife, mas que guarda em si um certo mistério;
mas os papéis que mais se transformam são os de Tony Leung e Maggy Cheung é
fascinante perceber neles o amor que revela-se desprezo, a cumplicidade que se
torna traição e todas as alterações no campo dos sentimentos. A lindíssima Zhang
Ziyi aparece num pequeno, mas importante e carregado papel. A ela pertence um
dos momentos mais marcantes de "Hero", a da luta no bosque.
E como são as lutas?
Simplesmente levam ao pé da letra o conceito do cinema ser composto de "quadros
em movimento". As lutas em "Hero" são pinturas móveis, lúdicas, coloridas, mais
carregadas de reflexão do que ação. Você se perde nessas seqüências como mirando
uma paisagem após certo tempo: meio hipnotizado, sente-se o coração encher. E
nem me deixe começar a comentar a luta sobre a água (o que é o take
submerso?!?). A beleza em "Hero" é ímpar, singular. Termina que eu queria casar
com o projetor do cinema. Yimou faz uma violência tão cheia de significado que o
filme poderia ser facilmente tachado de subversivo. "Hero" é tudo, menos "sub"
qualquer coisa. "Hero" conta uma história sobre revolução, sobre o amor à pátria
e, sobretudo, sobre o sacrifício humano em prol de um bem maior. A obra de Yimou
plana sobre os mortais, resta-nos admirá-la, sem fôlego, embasbacados.
Seguindo o verdadeiro desbunde que é "Hero", Yimou realizou o não-tão-bom "House
of Flying Daggers". É quase uma covardia colocar ambos os filmes lado-a-lado,
mas o novo filme de Yimou tenta orientalizar-se menos para o paladar do público
mundial e um pouco da magia acaba se perdendo. "House..." é um convencional
romance Wuxia Pian, onde sente-se uma certa mão pesada no quesito roteiro e
lutas.
A tal Casa das Adagas Voadoras é um Clã que novamente opõe-se ao governo.
Atuando em várias partes do Reino, o sargento de uma pequena localidade (Andy
Lau, o Antônio Fagundes de Hong Kong) segue a pista de que o bordel local
estaria servindo de abrigo para a filha cega (Zhang Ziyi, ainda mais deliciosa)
do Poderoso Chefão do clã. Ele consegue prendê-la, mas resolve usá-la de isca
para ser guiado ao grupo de marginais. Para isso, uma fuga é forjada por um dos
policiais (o galã Takeshi Kaneshiro). Durante a fuga, os dois acabam se
apaixonando, mas nada não é o que parece.
"House of Flying Daggers" começa com uma majestade do caralho. A cena do bordel
é um banquete para olhos e mentes. Os protagonistas estão completamente
cativantes e a ação, à princípio, parece indicar que Yimou está guardando o
melhor para o final. Infelizmente, o resto de "House..." segue monocordicamente.
O romance desenvolve-se numa série de "eu te odeio, eu te odeio, eu te amo" e,
particularmente, nunca chegou a realmente me envolver. Belas cenas como a do
bambuzal perdem um pouco do impacto pelo ritmo irregular da história.
Yimou concentra a tal palheta de cores no verde (ele varia mais no final), ainda
rico, mas cansativo depois de certo tempo. O filme é lindamente fotografado, a
trilha sonora especialmente folclórica nos catapulta direto à época retratada no
filme, mas há um excesso de lirismo que compromete a emoção - nós queremos nos
afastar para ter uma melhor perspectiva da beleza dos quadros, mas dificilmente
acabamos "entrando" neles. Porém, a história tem algumas boas (embora pouco
surpreendentes) reviravoltas que, somado a química de Kaneshiro e Ziyi (dois
chineses lindos para caralho e ótimos atores), mantém o espectador sempre
interessado. Há espaço no roteiro para criar um ótimo arco de desenvolvimento
dos personagens.
"House of Flying Daggers" é Wuxia Pian bem mais comercial, composto de visuais
nada menos que fantásticos, mas tenta apelar um tanto na história e nos
sentimentos. "House..." equilibra-se numa corda bamba, a atravessa sem cair, mas
meu Deus!, como balança até chegar ao final. Mantenha em mente que, mesmo assim,
o filme é um deleite aos sentidos, melhor do que qualquer porcaria que os
executivos americanos querem nos empurrar. O filme é repleto de razão de ser,
vai satisfazer o espectador que quer mais de seus filmes de entretenimento do
que um boquetinho de puta (o folclore e costumes culturais apresentados no filme
farão o dia daquele que gosta de aprender enquanto se diverte), é capaz até de
agradar o espectador comum mais do que "Hero", se a gente reclama é porque Yimou
criou um padrão altíssimo para si mesmo.