| Gedo Senki (Tales from Earthsea) - direção: Goro Miyazaki - Japão/2006 - crítica por evilgambit |
Gedo Senki debutou no Japão em 2006 e é o primeiro filme dirigido por Goro Miyazaki, filho de Hayao Miyazaki. Baseado nos livros de Ursula K. Le Guin, tem data prevista de lançamento no Brasil neste final de ano. De cara você percebe que é uma animação no nível dos estúdios Ghibli, não existe nenhuma preocupação em tornar o filme uma aventura de ação com dragões num mundo fantasioso, muito pelo contrário, o filme caminha lentamente e mostra que Goro apesar das críticas do próprio pai, tem talento e um estilo que lembra seu pai durante a viagem de Mononoke Hime à dez anos atrás.
Gedo Senki se passa num mundo medieval e fantasioso, mas existem claras referencias ao mundo real. Arren, o protagonista, está vagando a esmo pelo deserto até ser salvo por um senhor mais tarde apresentado como Gavião - um arqui mago. Ambos peregrinam até uma cidade onde deparam-se com uma sociedade lasciva, escravagista, que vive em um mundo aparentemente sem esperanças.
O enredo de certa forma é sucinto, mas não é claro. Se no começo do filme o alvo é o desequilíbrio das coisas, os problemas climáticos que afetam as lavouras, os animais e a degradação e falta de esperança das pessoas, isso é quase que deixado de lado quando Gavião e Arren chegam até a fazenda de uma amiga e passam a viver o cotidiano rural. Para só então retornar, em parte, ao tema inicial e introduzir mais personagens para justificar alguns fatos e explicar a origem de alguns personagens.
Na verdade, a história poderia ser mais simples, com menos enrolação. O filme é belíssimo, a animação apesar de contar com traços mais simples (questão de estilo) é muito boa e nada deixa a desejar se comparado aos outros trabalhos da Ghibli, existe uma preocupação sempre presente em presentear o espectador com o cotidiano simples da vida rural através de belas tomadas no filme, e quem aprecia as animações longa metragem do Japão está acostumado com o ritmo lento da maioria deles. O problema é que Gedo Senki as vezes não parece caminhar lentamente, mas sim estar sem rumo. Muitos fatos são explicados através de metáforas ou diálogos introspectivos demais e isso pode soar esquisito para quem gostou tanto de obras bem mais simples e diretas como Castelo Animado ou até Tonari no Totoro.
E quem vê o pôster de divulgação e espera por dragões como tema central da história e está acostumado com o humor pueril de Hayao Miyazaki, vai se decepcionar um pouco com o tratamento metafórico (quase isso...) dado aos dragões na trama e o tom sombrio e quase inteiramente melancólico do filme.
Apesar disso, Gedo Senki é uma obra interessante pelo apanhado geral. A história toca em aspectos sempre bem vindos, embora dada a violência existente (não é nada gritante, mas com certeza não pode ter o tratamento de animação infantil) o filme não tenha um foco primordial nos pequenos, mas é amplo o suficiente para tocar nos adultos. Se o espectador tiver a paciência e ignorar o enredo um tanto enrolado e o ritmo lento, será presenteado com uma bela animação, uma musica tema linda de morrer, uma boa história sobre o medo de viver e o amadurecimento, sempre recompensador para o protagonista e ao espectador que mais uma vez constata que animação pode ser coisa séria, com conteúdo, e quase que um luxo exclusivo dos japoneses.