DOOM - direção: Andrzej Bartkowiak  - EUA/República Tcheca - 2005 - review por Bernardo Krivochein

 

ATENÇÃO: Embora fã de videogames, me falta o talento para criticá-los objetivamente, mas se existe um jogo que eu conheço, é “Doom”. Portanto essa resenha não faz a menor questão de admitir o filme como um veículo original e inevitavelmente pode insistir em comparações com a matéria-prima. Não sei, ainda não escrevi o texto..

“Doom” – o filme – conta com uma longa seqüência de ação que reproduz a perspectiva FPS de “Doom” – o jogo. É um dos momentos mais esquisitos do cinema atual.

Você tem que esperar a droga do filme inteiro se desenrolar para chegar a tal seqüência, que se localiza no final da história. É a melhor parte do filme, porque, apesar de dificilmente inovadora, é uma tentativa de experimento ousada (a mesma técnica já foi usada pelo nosso querido Uwe Boll em “House of the Dead”, que inseria cenas diretamente extraídas do jogo no meio da ação – e ficou aquela coisa bonita que a gente conhece muito bem), intrigante e até bem resolvida num todo. Ela é gratificante, enquanto fã do game, por que tal seqüência reconhece a obra original e reproduz parte daquilo que fazia do jogo tão excitante, seduzindo o espectador com auto-referências engraçadas (como a seleção de uma serra-elétrica como arma) e de ser o momento em que o filme, de uma só vez, apresenta e dá cabo de demônios mais elaborados presentes no jogo. Mas ao mesmo tempo é assustador (a seqüência é absolutamente sintética, um POV realizado integralmente em CGI) pensar que o cinema possa se transformar justamente nisso: num mero videogame jogado por outrem na tela grande, para os pobres diabos que não fizeram ainda o upgrade de seus Home Theatres para telas de 700 pés de altura. A seqüência é mais frenética do que o jogo jamais foi e se estende além da conta - pelo menos para mim, assistir videogames sendo jogados por outras pessoas só não é mais chato do que seios numa pasta executiva.

E mesmo admitindo essa cena em sua trama, “Doom” – o filme – não é nenhum “Doom” – o jogo.

A história de “Doom” – o jogo – dificilmente era original. Variação mais moderna e complexa de “Wolfenstein 3D” (ainda lembro quando o instalei na rede do Laboratório de Informática do colégio), “Doom” representava a oportunidade de interagir diretamente num ambiente típico de filmes de ficção-científica em que muitos gostariam de imaginar se aventurando. Para ajudar a imersão, éramos informados de que os experimentos de uma agência aeroespacial com portais interdimensionais acidentalmente abririam, o que daria vista para o Inferno (Nikiti?) e os demônios atravessariam para nossa dimensão, cabendo a nós mutilá-los, estraçalhá-los e maislalhá-los com o arsenal que gradualmente se fazia disponível. A confusão é que um jogo claramente inspirado em filmes de ficção-científica é adaptado para a tela grande, revelando a adaptação da adaptação.

“Doom” – o jogo – mesmo apesar de inspirar-se em outras fontes, era algo original e plenamente satisfatório. A versão cinematográfica, no entanto, acomoda-se em ser um subproduto de outros filmes, inclusive algumas outras versões cinematográficas de videogames. Na realidade, “Doom” – o filme – é igual, mas igualzinho mesmo, a “Resident Evil”. O filme, claro.


Quer que eu prove? Sinopse: grupo treinado combate zumbis e mutantes em um complexo subterrâneo. Ambos os filmes podem ser descritos assim – desculpe, isso é importante dizer (considere isso um espóiler, se preferir): o foco do filme não são os demônios do inferno, mas os zumbis, que agora são frutos de experiências genéticas ilegais. Que nem “Resident Evil” (meus advogados me forçam a incluir a informação de que em nenhum momento estou defendendo a autoridade do filme “Resident Evil” no quesito originalidade. Em verdade, vos digo que o filme é decepcionante até como entretenimento vazio e que Paul W. S. Anderson não conseguiria se dirigir nem para fora de uma sala vazia – dizem que ele é gente finíssima, no entanto). Sei, “Doom 3” tinha trama parecida (assim como no tal jogo, os cientistas descobrem um portal para Marte, onde estabelecem uma colônia arqueológica nas ruínas de uma cidade alienígena antiga), mas ainda assim o inferno era parte fundamental da história. E quando que o inferno não é parte fundamental da história? Pergunte à Igreja Universal, que foi expulsa do Zâmbia por satanismo.

Os soldados chegam à Marte para conter as criaturas e proteger dados científicos importantes. Eles mantém os apelidos originais do jogo como “Sarge”, “Goat”, “Mac” e “Duke”, provavelmente porque teriam que pagar direitos autorais para usar fidedignas identidades de lanhouse como GoodCharlotteLover68 ou _bol@dasso_. The Rock solta uma frase de efeito ali e acolá, deposita o cachê no banco e fica feliz. Karl Urban faz o protagonista mais sonolento do ano, até que o roteiro desiste de seu personagem, baixando a comuna no tempo de tela de cada ator. A irmã do personagem de Urban, a cientista interpretada por Rosamund Pike vive espantada: é olho arregalado quando faz revelações aos soldados, é olho arregalado quando faz cirurgia nos outros, é olho arregalado andando na praia, é olho arregalado dando alpiste pro periquito, tudo é uma desculpa para ficar de olho arregalado. Ou é isso ou era uma competição de quem pisca primeiro com outro personagem e eu não prestei atenção.

Poderia atenuar um pouco dizendo que os fãs do jogo provavelmente irão gostar do jogo, mas isso é uma falácia. Pessoas pouco exigentes é que irão gostar do filme, mas como são pouco exigentes, há muito pouco do que elas não gostarão, certo? (talvez filmes realmente bons que não apresentem tamanha carga de suposta adrenalina como “Doom” parece fingir tão bem). É uma estupidez da parte de qualquer um acreditar que um fã de videogames seria alienado para o que é excelência em qualquer outra forma de arte, esperando encontrar apenas uma avalanche anestesiante de imagens computadorizadas em tudo o que resolve apreciar. Não posso negar que, claro, assim é a grande maioria dos gamers, mas em que meio a grande maioria das pessoas também não é uma bosta? Entre os espectadores de cinema, isso é mister. Só posso dizer que jogar videogames nunca queimou meu senso crítico, nada esperava de “Doom” – o filme - além de entretenimento rápido e vazio. O que tive foi um filme de shopping muito do passável, com um ou outro bom momento de humor, assume orgulhosamente a escatologia (algo que garantiria alguns pontos a seu favor, mas comparando com os filmes comerciais atuais, fica fácil), mas que logo se tornou redundante e, pior de tudo, chato. Tem (muita) gente que vai gostar, mas dificilmente os gamers ou gente com um mínimo de noção. Tô apostando naquele imbecil da tua academia.

 

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