Com as próprias mãos - crítica do filme - por Bernardo Krivochein

 

Estou realmente surpreso com "Com as próprias mãos". Não só é um filme surpreendentemente bom, mas trata-se de cinema-pipoca com algo a dizer. Vai saber, fui atraído pelo cartaz, The Rock segurando seu pau, e premissa, The Rock metendo o pau em todo mundo (o que me leva a crer que dentro de mim exista um homossexual enraivecido) e acabei, para muito meu regozijo, descobrindo uma verdadeira pérola, uma das melhores alegorias sobre os efeitos do corporativismo no mundo atual que sugere uma solução devolvendo o poder ao proletariado. Pode um filme comercial de estúdio ser rico em subtexto e promover a revolução popular? Pode. E funciona.

"Com as próprias mãos" é um remake de um filme de 1974, baseado num fato real. O soldado Chris Vaughn (The Rock, o lutador do WrestleMania) retorna para a cidadezinha natal depois de 8 anos para descobrir a tranqüilidade e a simplicidade por ele idealizadas substituídas por uma nova ordem local. A abertura de um cassino - por um amigo de infância - no local traz consigo a formação de um submundo: sexo, drogas, etc. Ao perceber uma fraude no cassino, Vaughn é deixado por morto. Ele acaba descobrindo a ineficácia da polícia, a corrupção que infestou os recursos públicos, todos os vícios dos centros urbanos em pleno interior. Quando seu sobrinho tem uma overdose, Vaughn dá um basta e resolve dar uma coça nos capangas da cidade.

É realmente uma sessão simples e nada exigente, o que faz o subtexto funcionar de modo mais eficaz. Louvamos muito "A Vila", "Fahrenheit 11 de setembro", mas mais pelas suas tendências democratas do que suas qualidades cinematográficas. Sendo assim, nada melhor do que sermos moderados e tentar entender o outro lado

Nenhum filme é tão revelador da psique americana conservadora quanto "Com as próprias mãos", mas não pense que o filme é um cântico de apoio a Bush - a obra do diretor Kevin Bray entende os anseios do eleitor conservador, mas com uma visão extremamente progressista e atualizada.


A começar, temos o protagonista, The Rock, retornando de uma guerra para encontrar sua terra natal alterada. A escolha do carismático lutador para o papel principal nos remete à seqüência no último documentário de Michael Moore, em que nenhum membro do Senado Americano aceita mandar seus filhos para a guerra. The Rock, descendente de samoanos, tem o rosto do novo americano: miscigenado, de etnia rica e misturada, de origem simples. É o tipo de rosto, background e cor-de-pele daqueles que foram alimentar as trincheiras de sabe-se-lá-onde em nome da pátria. No roteiro do filme, ele é filho de mãe branca e pai negro, ou seja, a idéia da miscigenação é mantida, um fator consciente. O núcleo familiar do protagonista ainda conta com a irmã (também com traços miscigenados, mas caracteristicamente negra), mãe solteira de um adolescente rebelde - não, essa não é o típico núcleo familiar americano! E no entanto, seus problemas, uma vez reconhecidos como tal em família, os fazem operar melhor do que aqueles enclausurados na casinha com cerquinha branca. O vilão do filme, Neal McDonough, no entanto, é o americano arquétipo: louro de olhos azuis, descendência obviamente européia, filho bom de família boa, endinheirado. Ele não só não foi para a guerra, como permaneceu para ceder aos poderes do capitalismo, vendeu sua alma e - subentende-se - aproveitou-se da situação da guerra para arrecadar lucros, feito bom agiota que é.

The Rock descobre que o moinho onde seu pai trabalhava não existe mais. A loja de ferragens, há mais de 100 anos no centro? Fechou. Agora temos uma Sex Shop. O néon exagerado do cassino, como aponta o personagem de Johnny Knoxville, mescla-se bem com as montanhas e a natureza local. O ex-soldado descobre que não tem mais seu ninho; a guerra não foi perdida na batalha, mas na perda da recompensa. O filme delineia os efeitos do capitalismo selvagem, transformando a cidadezinha num microcosmos da sociedade atual. As cenas que exibem a decadência do local chegam a ser gratuitas e tem pouca função na trama principal, mas surgem como bons pontos de argumentação. Nenhum habitante está feliz com a nova situação, mas o que eles podem fazer? Os jovens estão se drogando, se prostituindo, isso é o que o progresso, o avanço econômico e tecnológico tem a oferecer para o trabalhador? É justamente aí o momento em que "Com as próprias mãos" encontra sua força: quando ele anseia a volta à tempos mais simples, uma idealização do passado. Como fazê-la acontecer? No método antigo de se resolver as coisas, que as gerações atuais, mimadas e criadas parcamente por pais ausentes e negligentes, desconhecem:

No tortolho.

The Rock parte para a estupidez na hora de solucionar os problemas, mas, ao contrário dos debéis-playboys, ele luta pelo que é certo, pela restituição de uma velha ordem (há, porém, um consenso geral entre os personagens que, pelo menos para aquela cidade, o passado era realmente melhor - retrógrados? Será mesmo?). É um diferencial estúpido dos filmes dos anos 80 com Schwarzennegger e Stallone, dois astros de ação aos quais The Rock tende a ser sempre comparado. Nos filmes mais célebres daqueles astros, prevalecia o espírito yuppie que permeou aquela década, onde as lutas, por mais justificadas que fossem, eram vinganças exclusivamente pessoais, individuais. O que motiva The Rock, pelo menos nesse filme em particular, é um bem comunitário - ele só coloca seu plano em pratica ao ver-se apoiado pelos habitantes da cidade. Sua figura gigantesca destruindo máquinas de caça-níqueis é a própria materialização do superego de praticamente toda a população consciente. Tanto o americano médio quanto o estrangeiro querem dar uns bons tortolhos no processo corporativista. The Rock parte para a prática. O "método" cinematográfico poderia ser considerado também como uma alusão ao modo brucutu e ignorante com que os EUA tendem a lidar com as situações sócio-políticas mundo afora, mas quando The Rock (étnico) utiliza-se apenas de um pedaço de pau para lutar com os vilões (predominantemente arianos), que por sua vez, não abrem mão de armas como mini-metralhadoras, escopetas, etc., estes últimos, ao apoiarem a política armamentista, incorporam esse papel. Os vilões, surpresa!, estes sim representariam a política de guerra de Bush no exterior.

Essa rejeição ao progresso - assim como eles o vêem - transborda para os aspectos técnicos do filme. Não é um acesso de americanismo e qualquer preconceito quanto a este argumento deve ser muito bem argumentado: nada mais é do que o mesmo nacionalismo que serve de combustível aos universitários de classe média que rejeitam qualquer forma de influência cultural estrangeira, mantendo sua atenção virada para o samba de roda, o choro ou qualquer movimento típico brasileiro, nunca avançado, sempre no passado. Na fotografia, por exemplo, existem movimentos de grua, travellings e camera-cars estranhamente tremidos, desajeitados. Estes se tornam mais estranhos ainda, porque segundos depois, os mesmos movimentos são repetidos de modo absolutamente perfeito. O que significaria isso? Uma humanização estaria ocorrendo por trás da câmera, quem sabe? Podemos constatar isso especialmente na (boa) trilha sonora repleto de Americana, canções folk-country repletas de pedal e slide guitar, porém... na única cena romântica do filme, é escolhida a belíssima cover de "Blue Monday" pelo grupo de trip-hop Flunk. Mais porém ainda, justamente quando a bateria eletrônica está prestes a entrar, a mixagem do filme atém-se ao violão e voz da música. É uma preservação do ideário que o filme se propõe a exibir e, por que não, defender.

SPOILER: É UMA ANÁLISE DO FINAL DO FILME!

Mas a luta final de "Com as próprias mãos" é a que mais revela que o filme é, de fato, pensado nos subtextos. É uma clássica luta entre o burguês e o proletariado, que inicia-se dentro de uma fábrica - e dentro desse ambiente, é óbvio que o patrão leva vantagem (The Rock é quase até engolido pelas engrenagens do local, quase como um Chaplin de "Tempos Modernos") -, mas o cenário industrializado da luta é substituído pelo ambiente mais elemental da natureza: uma floresta. A batalha continua com mais simbolismos ainda (The Rock luta com um pedaço de madeira, o vilão, com um machado de mercado), mas no ambiente natural - na sociedade em seu elemento mais despido de vícios tecnológicos - é onde o trabalhador finalmente poderá encontrar justiça. Não é que a tecnologia seja um mal a ser excomungado das nações, mas a tecnologia, como a conhecemos, traz consigo uma mentalidade economicamente abusiva e opressora que, a esta altura do campeonato, tornou-se intransferível, inseparável. As poucas linhas de diálogo que fecham a seqüência, ambíguas que só elas, são a chave de ouro que concluem esse raciocínio.

O VILÃO: "Você é um nada!" (ora, o que um patrão realmente acha do indivíduo fornecedor da mão-de-obra?)

THE ROCK: "Nosso relacionamento mudou." (e tal relacionamento é justamente o do trabalhador/consumidor com a mentalidade do lucro-a-qualquer-preço das corporações que viciaram o sistema público, uma quebra de contrato com seu patrão)

FIM DE SPOILERS

Antes que você pense que eu virei chincheiro, ou que estou sendo irônico, ou que estou recebendo jabá da distribuidora, todo esse conteúdo salta aos olhos do espectador que assistir "Com as próprias mãos", o que eu espero muito que você faça. Não é nenhuma piração minha, tudo o que eu escrevi é meramente descritivo, tão evidente quanto a massa muscular do protagonista. Para o espectador que se submeter a descobrir como o diretor está utilizando de artifícios para reforçar subtextualmente o seu argumento é realmente divertido. O roteiro foi escrito a quatro mãos (uma de cada roteirista) e, apesar do filme ser o mais direto possível, fica claro que todas as cenas, simbolismos e diálogos foram extremamente bem bolados, nos levando a crer que haja algo especialmente pessoal nessa obra coletiva. Como uma espécie de uma resposta aos filmes contraculturais dos anos 70, "Com as próprias mãos" é uma fatia da América e dos habitantes que moram nos "fly-over territories", da frustração com as promessas douradas de um futuro melhor e mais prático, que nunca se concretizou. O filme não condescende à melancolia e, ao contrário das jovens mentes revolucionárias sem força de ação nenhuma além do bradar de seus discursos, seu protagonista toma uma atitude igualmente bruta à opressão sofrida pela população. Esse desejo de retroagir a ordem vigente um degrau abaixo nos remete a filmes como "Adeus, Lênin!" ou "As invasões bárbaras", numa metodologia hollywoodiana, claro. "Com as próprias mãos" adequa-se mais a esta categoria de filmes do que os Stallone Cobras da vida. Eu nem falei da ação do filme (da qual o filme chega a carecer, embora a cena em que o protagonista põe um cassino praticamente abaixo com um pedaço de pau deixe o espectador querendo mais), das atuações (The Rock é um ator de verdade, carismático e com ótimo alcance emocional), porque só o fato do filme ter conteúdo me pegou absolutamente desprevenido e o jeito como "Com as próprias mãos" lida com o mesmo, em dados momentos, alcança o brilhante. Me arrisco a dizer: para o que eu achava que o filme se propunha inicialmente a ser e o que acaba se revelando, "Com as próprias mãos" é uma surpresa imensa, tão divertido quanto é relevante para os dias de hoje.

 

 

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