| Bob Esponja - O Filme - resenha por Bernardo Krivoche |
Meu Deus... O que foi que eu acabei de ver?
Não, eu sei o que foi... Era
um desenho animado... um dos longa-metragens que eu estava mais ansioso para
assistir em 2004... De um dos meus personagens de desenho favoritos... As
luzes do cinema estão acesas... o cheiro de urina é forte, as pessoas
realmente se mijaram de rir, mas espere. Não foram as crianças. Foram os
seus pais.
"Bob Esponja - O Filme" são 90 minutos de pura diversão lunática. Claro,
sofre de defeitos característicos (porém evitáveis) de adaptações
cinematográficas para programas de televisão: a premissa básica é simplória
e derivativa, de fato parece um episódio esticado e nada mais, a animação em
nada evolui da técnica televisiva, o ritmo dá suas caídas aqui e ali, há uma
carência de presença dos outros personagens da série em cena (senti
particular falta de Gary, o caracol), etc.
O próprio personagem Bob Esponja é alvo de críticas, acusado de ter sido criado para preencher o slot de "Ren & Stimpy" de modo mais ameno - o que é de uma ignorância mor. Alguns episódios de "Bob Esponja" são de uma bravura imensa considerando o constante processo de "água-com-açúcarização" da cultura comercial, onde filmes de terror tem a escatologia cortada pelos cabeças-de-estúdio para conseguirem uma censura mais amena=mais bilheteria=filme mais fraco; como não se espantar com um episódio onde a piada final envolve Nosferatu (um still animado do próprio Max Schreck)? Ou "Semana da Pré-hibernação", com trilha sonora do Pantera (cujo ex-guitarrista faleceu recentemente - R.I.P.)? Ou, num momento pico da bizarrice, o episódio "Fisgado", com participação de (olhe só) Jim Jarmusch? É, o diretor independente mesmo.
Mas tão cativante do que as
participações, é o eterno otimismo e ingenuidade dos personagens e o humor
nonsense de um "Monty Python" com a sensibilidade apropriada para crianças. A
versão cinematográfica concentra-se mais em cima da dupla principal, o
personagem-título e o já clássico Patrick, "o" estrela-do-mar, que partem em
busca da coroa roubada de Netuno (dublado no original pelo ótimo Jeffrey
Tambor), quando Siri Cascudo é confundido pelo ladrão, na realidade, o invejoso
- e minúsculo - Plâncton. Perceba que é uma trama que vai do ponto A ao B, mas
transformada psicodélica pelos nomes dos personagens. Pois "Bob Esponja" arrisca
para valer, quando ousa em momentos de puro surrealismo, em piadas absolutamente
adultas (e perigosas) ou em referências cult completamente sofisticadas (o filme
começa com piratas cantando... isso faz mais sentido para o meu pai do que para
mim). Tem uma ou outra cena que são simplesmente... erradas.
E são vários momentos que grudam na memória do espectador, que vai lembrá-los na
lanchonete depois do cinema e rir tanto que espirrará Coca-Cola pelas narinas.
As músicas entoadas pelos personagens são hilárias e memoráveis (a trilha
sonora, com THE FLAMING LIPS - grifo meu - The Shins e outros artistas seria uma
das melhores do ano, caso não fosse a dispensável presença de Avril Lavigne, a
punk que não saberia o que é anarquia se a mordesse na cara), a versão original
conta com Scarlett Johansson como a princesa filha de Netuno, Alec Baldwin na
voz de um assassino de aluguel e o filme, pasmem, tem uma mensagem sobre
acreditar em si mesmo, que é um bocado simpática. Mas é quando Patrick aparece
com uma bandeira enfiada no cu, ou quando David Hasselhoff aparece para
providenciar não só uma ponta, mas também cenário (i-na-cre-di-tá-vel) é que o
espectador pode ter noção do nível de insanidade da mente de Stephen Hillenburg.
Eu não consigo lembrar de Hasselhoff saltando feito um tifóide na água sem
começar a rir. Pelo menos uma cena está fadada a tornar-se clássica: quando Bob
Esponja e Patrick tem uma overdose de sorvete no banheiro imundo de um bar de
motoqueiros - quase uma versão censura livre de "Christiane F." Não bastasse ser
hilariantemente cometida, é mais espantoso saber que os criadores conseguiram
que uma referência óbvia e madura como essa passasse incólume na fita.
Tendo potencial para se transformar num marco do Cult Cinema, é um daqueles
momentos do cinema que precisam ser testemunhados em seu "agora", para que no
futuro, possa se dizer às gerações mais novas: "Eu assisti à 'Bob Esponja' no
cinema. Sim, eu estava lá..." Eu diria que o filme ainda é sério candidato a
tornar-se uma espécie de Cinema Maldito infantil. É inacreditável em partes,
surrealmente hilário em sua maioria e delicioso no todo. Acho que pais vão
utilizar os filhos de desculpa para poder ver de novo.