Battle Royale - direção: Kinji Fukasaku - Japão 2000 - review por evilgambit

 

Battle Royale é o tipo de filme que nunca vai passar na Globo.

Baseado no livro de mesmo nome, rendeu uma seqüência no cinema anos depois e uma série de mangás que compõe melhor cada um dos personagens, eu vi esse filme no comecinho de 2002 e meu primeiro pensamento a respeito dele foi: "Isso nunca vai passar nos EUA ou Brasil..."

Direção de Kinji Fukusaku, obra completamente japonesa, revelou uma trupe magnífica de novos atores nipônicos, teve a colaboração do brilhante Takeshi "Beat" Kitano ( de Zatoichi e Brother ), revolucionou o cinema japonês ( conteúdo e estetica ) e deu um tremendo gás de vivacidade e originalidade para o então crescente cinema asiático. Ok mas afinal, o que é tal de Battle Royale?

Num futuro próximo a economia japonesa encontra-se em expressiva decadência. O desemprego indica níveis que beiram o absurdo para um país que já foi potência mundial. A delinqüência juvenil aflige a sociedade, a rapaziada não quer mais saber de estudar e a evasão escolar atinge níveis preocupantes! Numa medida extrema o governo japonês adota a lei BR 15 para solucionar o problema de "futuro" para sua juventude...

O que é a lei BR 15? Eu tentaria ser cômico e extremamente perverso em tentar explicar, mas eu não superaria  o singelo vídeo explicativo veiculado durante o filme ( é cômico e extremamente bizarro ). Resumidamente: por meio de uma loteria nacional, uma sala inteira do segundo grau ( mais ou menos 40 alunos ) é selecionada e encaminhada a uma base do exército. Lá os jovens descobrem que serão mandados a uma ilha deserta, com direito a uma mochila com itens básicos ( itens extras paras as meninas, claro ) e uma arma selecionada aleatoriamente, podendo ser um guarda chuvas ou uma submetralhadora ( vai da sorte ).

Para que a arma? A regra é simples. Só um volta vivo para casa! Há, lembrando que todos são monitorados via satélite e via voz através de uma coleira eletrônica presa a cada aluno e existem na ilha, selecionadas de hora em hora, áreas consideradas "perigosas", esteja nesta área e sua coleira explode, bem no estilo de " O Sobrevivente ", aquele antigo com o governador da Califórnia.

O interessante disso tudo é: A molecada não tem escolha, é ir e matar para viver, ou bobear e morrer e possivelmente na mão de um amigo seu ( na melhor das hipóteses ). Logo de cara, é de se imaginar que a turma do fundão, principalmente, não iria engolir essa "lei" assim tão facilmente, e antes mesmo que o game comece, dois morrem e o impacto neles e em você que está assistindo é tremendo, eles e você caem na real: o negócio é sério!

O que se segue é um verdadeiro show de horrores, tudo completamente monitorado como um verdadeiro Big Brother Japan com o Takeshi Kitano como Pedro Bial porém sem paredão na terça feira, pois o game tem apenas dois dias de duração. Caso existam dois ou mais sobreviventes é game over para todos. Então, eles tem que se esforçar para fazer valer tudo que tio Darwin disse, e o fazem, as mortes beiram o patético de início, mas durante o jogo começam a se formar os grupos de resistência e os solitários, que preferem jogar sozinhos, e são BEM eficientes diga-se de passagem e é no meio da carnificina que momentos memoráveis abrilhantam o filme. A desconstrução ou fortificação de algumas amizades celebram o que temos de mais humano: compaixão, amizade, ódio e ciúmes e porque não violência; e impressiona a mão certeira do roteirista e do diretor quando percebe-se que você vivenciou cada um dos 40 alunos, mesmo que por segundos, você conheceu cada um deles de forma concreta, passa a formar uma opinião sobre cada um deles no decorrer do game, mas quando conhece a fundo o passado de alguns deles, pode engolir seco....

O filme fica mais interessante ainda se eu te propor desta forma: tente imaginar a sua sala de aula sendo escolhida para o BR 15, e ae? Como você acha que a fauna da sua sala de aula iria se comportar? Imagine como seria o comportamento de alguns de seus amigos ou conhecidos se retirássemos o advento  "não matar", "não ferir" e que fique bem claro o: "é agora ou nunca mermão". E é neste ponto que Battle Royale deixa de ser um scary movie wannabe e torna-se uma peça memorável do cinema, ele te faz pensar, se inicialmente o feeling aparente é morte e violência, não é bem essa a mensagem do filme. Fica bem claro que nós podemos ser cruéis e violentos para simplesmente sobrevivermos, retifica ou põe em cheque o argumento daqueles que simplesmente taxam de animais irracionais aqueles que cresceram nas ruas  e acabam por matar a velhinha da esquina para comprar pedras de crack, por exemplo, e evidencia que em alguns casos, mesmos sujos de sangue, a amizade e a confiança também podem ser alicerces básicos para sobreviver na selva da vida, a mesma que todo jovem precisa enfrentar quando se forma e se acha preparado para a selva da vida adulta.

Não quero oprimir a opinião de ninguém, sei que muita gente viu ou vai ver esse filme e vai ter uma visão "Elefant" sobre ele, vai cogitar que ele é gratuito, um Kill Bill sem samurais e gangsters ( isso seria defeito? ) e que na verdade é tudo uma desculpa para apreciar um monte de japinha bonita! Mas opinião é opinião e esta é a minha: Battle Royale é um filme que vale o download. Esteticamente ele é brilhante, é tudo que Sin City quis ser ( esqueça o estilo das HQs, me refiro a violência estilizada e SUJA ) mas neste caso com um conteúdo magnífico. Tem um cast de atores jovens que te convencem como excelentes atores e tem Takeshi Kitano, que numa cena linda pergunta: e onde fica a inocência disso tudo? Enfim, é uma puta crítica ao sistema de ensino imposto como cabresto para os jovens ( em especial a japonesa ), à falta de esperanças depositadas neles, à recessão japonesa que afligiu o país nos anos 90 e perdura até hoje, porque não dizer aos reality shows que de conteúdo, perdem para o que caguei hoje antes de escrever esse texto, mas acima de tudo é uma brilhante metáfora sobre o casulo que é ser adolescente hoje em dia e só por isso vale ser assistido.

 

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