| Tropa de Elite - direção: José Padilha - Crítica do pirata por evilgambit |
Manja quando você está em uma rodinha de amigos conversando sobre cinema e alguém puxa aquele velho papo dos "dez melhores filmes"?
Pois é!
Tropa de Elite preenche com louvor uma pretensa, temporal e subjetiva lista de melhores filmes que assisti, confesso que ainda estou anestesiado pela poderosa energia que esse belo filme emana, então não estranhem se esse texto fique mais parcial e pessoal que de costume.
O filme retrata o dia a dia do capitão Nascimento (Vagner Moura, fodão como sempre foi no cinema) do BOPE, a tropa de elite (dã) da policia carioca. Nascimento é o típico herói necessário em ambiente de guerra, é selvagem, truculento e com um pingo de senso de justiça, o grande dilema do filme é que ele quer pular fora, afinal depois de anos combatente o crime nos morros cariocas, ele está decidido a abandonar sua insígnia para tomar conta de sua recém formada família, e precisa achar a todo custo um substituto à altura. O filme é narrado em capítulos, não lineares, mas que de forma alguma o deixa confuso, o belo roteiro agrega absurdo conteúdo a respeito da criminalidade, causa e efeito e memoráveis momentos de violência e ação policial, da qualidade que sinceramente, nunca esperei de um filme nacional.
O roteiro e direção são incisivos na causa e efeito, todo mundo já deve ter visto os comerciais da campanha anti drogas, com mensagens do tipo: "A maconha que você fuma, financia o tráfico que mata gerações de crianças nos morros cariocas", pois é, o filme não apenas toca na ferida, como arranca a casquinha, mastiga e cospe na sua cara. A trama também centraliza nos dois pretensos substitutos: Matias e Neto, o segundo é típico espartano pronto para servir nos campos de batalha, é a força bem representado, o primeiro é o cérebro, Matias quer ser advogado, acredita nas leis deste país e graças aos seus amigos da faculdade o filme consegue abordar um tema extremamente importante!
Matias entra em contato com uma ONG mantida pelos seus amigos ricos da faculdade, eles sobem o morro e remediam à seu modo, como se jogassem pedras em um abismo afim de diminuir a imensa profundidade que separa sua realidade dos que vivem nos morros cariocas, é alienante como Malhação? É bobo como os editorias da revista Veja? O diretor José Padilha não tem pudor de sacanear a mídia brasileira, primeiro mostrando de forma explicita o logotipo da rede Bandeirantes em determinado momento, segundo: ele pega alguns atores globais tipicamente usados em suas produções do estilo "vamos maquiar a sociedade brasileira para deixá-la linda e fashion" e os coloca como avatares do pilar de sustentação do narcotráfico, violência urbana e caos que aflige não só o estado do Rio de Janeiro, mas o país todo.
Outro ponto fundamental que o filme toca é a corrupção, o filme expõe de forma quase caricata (e real) como é a podridão nos alicerces da polícia militar carioca. Os policiais do Bope são retratados no filme como soldados superiores, altamente treinados e obstinados mas que de bondosos não tem NADA. O filme não perdoa nem sonega carga de violência ao retratar como funciona o esquema de coleta de informações ou como é aconchegante o treinamento para se tornar um deles.
Tecnicamente o filme é perfeito. Da trilha sonora muito bem encaixada, passando pela atuação, direção com um estilo menos videoclipe e mais apurado, cru até. O roteiro consegue entreter como filme de ação/policial com conteúdo suficiente para gerar debates interessantes que vão muito além do papo furado de botequim. O filme tem um opinião própria de uma realidade escancarada e vivida por todos nós mas esta sendo muito comentado na mídia apenas por ter vazado antes do lançamento (quando o filme é bom... acontece), conheço muita gente que viu a cópia pirata, adorou e foi enfático: "Quando sair no cinema, eu vou ver com certeza". Se o piratão vai funcionar como propaganda em massa para que você consumidor (safado) vá consciente gastar uma bela grana no cinema só o tempo vai dizer.
Tropa de Elite, como tudo na vida, não é unanimidade, nem deve ser. Mas que finalmente põe de forma clara uma das facetas desta sociedade corrompida, alienada, saudosa por esperança que se esvai a cada dia, confesso que me senti vingado em alguns momentos, solidário em outros e até envergonhado em me deliciar com tamanha crueldade retratada, existente sob tantas formas, tanto na "ficção" como na surreal vida real da classe média brasileira. O que dirá o "excluído"....?
Vamos criar uma ONG?