| Watchmen - direção: Zack Snyder - EUA/2009 - crítica de cinema por evilgambit |
Antes de mais nada cabe avisar: eu não li Watchmen.
Como consumo entretenimento pop e obviamente estou rodeado (virtualmente, ao menos) de nerds, sei sim da importância desta HQ para os quadrinhos adultos e da sua inestimável contribuição para que essa arte fosse melhor apreciada como algo contendo seriedade e conteúdo relevante. Mas também é só, não sabia absolutamente nada sobre a trama e não conhecia nenhuma das personagens. Como a obra original é praticamente uma religião entre os entendidos, seria enfadonho que eu ignorante e alheio a isso tudo dar minha minha opinião sobre este filme?
Não, e por um simples motivo. Nem todo mundo leu a HQ.
É interessante, agora eu estou do outro lado do combate entre nerds que anseiam por uma obra fiel e que seja igualmente complexa à sua paixão original e o público que vai ao cinema simplesmente para se divertir e pelo menos no meu caso, absorver uma trama bem contada, bem conduzida e por favor, que me trate como ser pensante.
Logo na abertura sou apresentado a um universo rico e quiçá único dentre os filmes de super heróis disponíveis por aí, Watchmen é deveras interessante pois consegue unir a fantasia dos heróis mascarados (aqueles cômicos mesmos, com aquelas roupas absurdas) em um contexto bem realista, sendo parte importante da história recente da humanidade. Você nunca parou para pensar, como seria a estrutura política e econômica global se houvesse realmente um super ser entre nós? Como as potências econômicas e militares iriam lidar (e usar) com isso?
Watchmen não se contenta apenas em nos apresentar uma história, mas nos apresenta uma versão da NOSSA história se os super heróis realmente existissem e disserta sobre como vários deles iriam lidar com um mundo perverso e imoral como o nosso. Esse fator por si só faz o filme valer o ingresso. Por que é algo ÚNICO e foi muito bem construído e conduzido no filme.
E não espere um enredo batido no liquidificador, sedimentado em uma forma de duas horas e meia e recheado de cenas de ação para fazê-lo engolir pipoca mais rapidamente. Watchmen não perdoa o cinéfilo acéfalo ao atordoá-lo com idas e vindas do presente ao passado, construindo aos poucos os vários personagens (todos com algum valor à trama) para finalmente encaixar tudo no final, que é muito interessante e que fiquei sabendo (valeu Julio, pela explicação), é diferente da HQ.
O filme é denso, tem uma construção singular e brilhante, e também não é perfeito. A direção de Zack Snyder (de 300 e Dawn of the Dead) consegue ser memorável em alguns momentos e causa estranheza em outros. O que me incomoda nesse sujeito é o vício que ele tem por câmeras lentas, é só alguém levantar o braço para cair na porradaria para começar os slowndows, teve um momento em particular que eu virei para o lado e disse para a dona Evil:
"This is Sparta?"
Enfim. Outro ponto esquisito no filme é a atuação e condução dos personagens (e atores). Eu não conhecia nenhum personagem, talvez quem já se relacionasse com eles no papel impresso não tenha ficado com essa impressão, mas em muitos momentos me incomodou: alguns personagens parecem deslocados na trama, para em seguida ganharem uma posição impar na mesma. Isso de deve em muito à colcha de retalhos que é o enredo e alguns tem importância maior, outros menores. Mas para mim ficou notório que em alguns diálogos, importantes à beça, você só nota que são importantes mesmo quando eles acabam. Me causou estranheza essa inabilidade em tratar e dar o devido peso para alguns momentos chaves do filme. Justo você Snyder...
Outro ponto que merece ao menos um comentário: Que porra de trilha sonora foi essa ?!
Que fique claro, eu achei o filme muito bom. Tirando meu medo de ver alguém sacando uma espada e um escudo de bronze no calor das cenas de ação, eu sai satisfeito do cinema. Note como eu não fiz meu tradicional resuminho da trama, se você, assim como eu não conhece a história, vá assistir para correr o enorme risco de se surpreender! Existem críticas abertas à política armamentista, à guerra fria, tudo com uma calorosa ideologia, defendendo valores nobres como o sacrifício nefasto para alcançar o bem maior. Nas sua essência é legal porque clama em ser levado a sério, e convenhamos, com o figurino que os personagens desfilam, é necessário uma argumentação concisa para tal feito. Seria sem sombra de dúvidas o melhor filme de heróis que tive a oportunidade de assistir (isso fica para Cavaleiro das Trevas) se o diretor em questão não fizesse questão de deixar sua marca.
Ou sua mancha...