| Fahrenheit 11 de setembro - diretor: Michael Moore - EUA 2004 - crítica de Bernardo Krivochein |
Fahrenheit 11 de
setembro" é obrigatório.
"Fahrenheit 11 de setembro" é uma obra poderosa.
Você, assim como o cinema inteiro, provavelmente se sentirá irado e vingado ao
assistir "Fahrenheit 11 de setembro", aplaudindo entusiasticamente ao final,
como deve ser, sentindo a alma lavada.
"Fahrenheit 11 de setembro" é bom, mas não é um grande filme.
Antes que comece o hate-mail, deixe-me explicar. "Fahrenheit 11 de setembro" é
uma grande propaganda, assim como "Olympia" e "O triunfo da vontade" eram para o
partido nazista. Neste caso, uma grande campanha anti-Bush que funciona e deve
ser apreciada como tal. Como trata-se do líder mais poderoso do mundo (ay vey...),
o filme traduz-se perfeitamente para povos de qualquer língua.
NO ENTANTO, creio que ninguém fora do eixo EUA-Inglaterra precisa realmente de
um filme para saber que Bush é um presidente incompetente e que a Guerra ao
Iraque era (é) inútil. "Fahrenheit 11 de setembro" permite que Michael Moore
destile em cima destes tópicos, mas o tom é tão inflamado e autoritário que
explica porque o filme não mude a opinião de ninguém que o assiste. É bem sermão
para os convertidos. O entretenimento em "Fahrenheit" depende pura e
simplesmente daquilo que as pessoas estão levando ao cinema e não dele.
Eu quero ver a dinastia Bush se foder tanto quanto qualquer um, mas essa opinião
não me impediu de assistir "Fahrenheit" como um documentário cinematográfico
como a obra se propõe a ser. Isso, eu vou fazer o papel do chato - palavra que
deriva do grego criticus - , mas é porque eu me senti realmente incomodado com
aspectos do filme que, honestamente, não devem irritar ninguém. Talvez eu esteja
sendo pentelho e implicante, talvez eu queira comprar problema com o mundo, mas
vou me propor a falar do filme enquanto cinema. Foda-se minha opinião política.
Você não vem a esse site atrás disto. É como se você fosse procurar pornografia
em site culinário.
O que fazia "Tiros em Columbine" um filme tão intenso era justamente a certeza tranqüila de Moore sobre sua opinião. "Tiros em Columbine" fluía. O raciocínio era tão bem desenvolvido que, com desenvoltura, bom humor e relaxamento, o diretor nos provava que ele estava certo. Ele entretinha e convidava o espectador a refletir.
O discurso de Moore em "Fahrenheit" assemelha-se ao daquele universitário numa festa que resolve subir no caixotinho de uva, esbravejando irado sobre qualquer que seja sua implicância política: por mais que concorde com ele, você acaba se aborrecendo simplesmente porque ele não está dialogando, mas querendo fazer sua cabeça como se você fosse mais burro do que ele para ter opinião política e, simplesmente, o sujeito não consegue ser cativante. O filme também não é coeso, mais parecendo episódios do "The Awful Truth" amarrados juntos. A primeira metade do filme parece feita às pressas, o que é compreensível, visto que o filme precisava estar concluído a tempo das eleições norte-americanas.
Porém, é justamente
a primeira parte a mais interessante: o começo narra a palhaçada da recontagem
dos votos da Flórida nas eleições de 2000 e faz com que a Globo pareça uma santa
perto da Fox News (o jornalismo manipulado desse canal é foco de outro
documentário deste ano, "Outfoxed"). Moore até se ausenta para deixar a
administração Bush se envergonhar sozinha - e esta faz um excelente trabalho! A
relação da família do presidente com a família Bin Laden é delineada de maneira
incriminadora, com direito à quebra de decoro político do Bush pai. Mas mesmo
aí, o fio condutor tende a se perder e a distrair querendo cobrir o excesso de
assuntos ao mesmo tempo. O filme é obviamente uma macumba das brabas para o
Bush, mas não é só sobre o presidente, é sobre uma série de tópicos que não
parecem correlacionados, por mais que realmente sejam. Interessante é ver como
existem provas incriminadoras contra Bush e não se vê o filme de Moore ressoar
na esfera política dos Estados Unidos - há uma razão: Moore não apresenta as
fontes, mesmo embora em entrevistas ele diga que futuramente irá revelá-las. Só
que está lá como apresentado e sem essa informação, um pecado.
Eu não tive nenhum problema com Moore trazendo a "história" para o nível do
americano comum, no entanto. A já famosa cena da mãe do soldado morto, habitante
da cidade-natal do diretor, Flint, Michigan, me pareceu ressoante e necessária.
É na carta do falecido soldado que se encontra, talvez, a suposição mais sóbria
sobre as razões da Guerra do Iraque, um momento ao mesmo tempo tocante e
emputecedor. "Fahrenheit" é mais as partes do que a soma delas - em blocos
separados, seqüências como o empreendimento petrolífero da família Bush, os
momentos relacionados ao 11 de setembro, o desenvolvimento da Guerra do Iraque
são brilhantemente delineadas e investigadas. A aparente passividade do cidadão
americano perante as arbitrariedades de seu presidente também é redimida, mesmo
embora não tenha me feito desistir da opinião de que, se os americanos insistem
em ter o líder de Estado mais poderoso do mundo, que o restante do mundo também
votasse nas eleições presidenciais americanas (ué, não posso escolher quem vai,
eventualmente, mandar em mim? - tá, opinião política que escapou, desculpa).
E há um bocado aqui para se enfurecer: as imagens da Guerra são brutais, mas
necessárias; as torturas militares aos iraquianos encontram-se aqui - mas a
reflexão de Moore sobre o assunto, embora não justifique (especialmente durante
a revoltante cena da véspera de Natal), é bem ponderada; As cenas de Bush são
tiradas divertidamente de seu contexto e o sujeito passado é a encarnação do
capeta; como em qualquer filme de Moore, há uma dura crítica ao capitalismo
selvagem (que vergonha, Microsoft!), que mantém a linearidade do corpo de sua
obra. Mostrar um membro do clã Bin Laden nos EUA meses antes do atentado é tão
hilário quanto assustador. Uma cena em particular chama a atenção: os oficiais
da Marinha tentando arrebanhar jovens de classe baixa a alistarem-se. E eu que
achava que vendedores de carro é que mentiam sem a menor vergonha... Há também
um clímax redentor em Washington, mas que poderia ser levado mais adiante pelo
diretor. O humor de Moore mal está presente na narrativa, mas "Fahrenheit" tem
as deixas musicais mais bem aproveitadas do ano (o uso de "Cocaine" do Eric
Clapton chega a quase ser uma piada interna reservada aos que a conhecem). Sobra
até para a Britney Spears.
Mas "Fahrenheit" não escapa de soar redundante volta e meia. Um antigo amigo meu
tinha uma camiseta de uma escuderia de Fórmula 1, onde um dos patrocinadores,
estampado nas costas para todo mundo ver, era a companhia petrolífera Osama,
propriedade de você-sabe-quem. Eu não fiquei mais chocado/admirado/assustado com
"Fahrenheit" do que com aquela camiseta, mas ele dissertou maravilhosamente
sobre o assunto. É contra-propaganda política até o útero e visto como tal, é
uma obra-prima. Tomara que os editores da Veja assistam e aprendam como é que se
boicota uma eleição. "Fahrenheit 11 de setembro" é o filme mais intenso, mais
sério, mais alarmante e mais conflituoso que Moore já realizou. Mas é
indiscutivelmente importante.